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O Brasil detém cerca de 13,9% das reservas mundiais de terras raras, segundo a ANM, exportando concentrado, mas importando o dobro em produtos processados, como óxidos e ímãs. Para a GreenBond Conservation, soberania mineral é assumir responsabilidade pelo território e pelas pessoas que sustentam essa riqueza. Transformar esse potencial em desenvolvimento exige mais do que extrair recursos: é preciso fortalecer a indústria nacional, ampliar a autonomia tecnológica e garantir que a exploração respeite os territórios, a biodiversidade e as comunidades. Neste artigo, veja onde estão as reservas de terras raras no Brasil, por que a China domina o setor e o que o país precisa fazer para transformar esse potencial em desenvolvimento.

O que são terras raras e por que elas são estratégicas? 

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos metálicos (os 15 lantanídeos, mais escândio e ítrio), usados em ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, equipamentos médicos e sistemas de defesa. São estratégicas porque essas tecnologias dependem delas e porque sua cadeia produtiva está concentrada em poucos países.

O termo “terras raras” não significa que esses elementos sejam escassos na crosta terrestre. O desafio está em encontrar depósitos economicamente viáveis, separar os elementos com eficiência e desenvolver a infraestrutura necessária para transformá-los em matérias-primas industriais e produtos de alto valor agregado.

A complexidade da extração e do processamento explica por que as terras raras ocupam uma posição estratégica na economia mundial. Seu valor está tanto na disponibilidade dos recursos minerais, quanto no domínio tecnológico das etapas de beneficiamento, separação, refino e fabricação de componentes.

Países capazes de controlar essas etapas possuem vantagens competitivas em setores essenciais à transição energética, à inovação industrial e à segurança nacional. Confira onde as terras raras são utilizadas na economia e na transição energética.

Motores elétricos e veículos eletrificados

O neodímio e o praseodímio são utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alta potência. O disprósio e o térbio podem melhorar o desempenho desses materiais em temperaturas elevadas. Os ímãs permanentes de terras raras permitem desenvolver motores compactos e eficientes, importantes para veículos elétricos e equipamentos industriais. Embora nem todos os motores elétricos utilizem ímãs de terras raras, esses elementos são fundamentais para determinadas tecnologias de alto desempenho.

Energia eólica e transição energética

Alguns geradores de turbinas eólicas utilizam ímãs permanentes à base de terras raras, que favorecem elevada densidade de potência e podem reduzir a necessidade de determinados componentes mecânicos. Os ímãs de terras raras contribuem para tecnologias de geração renovável, embora existam turbinas que utilizem outras configurações de geradores. Sua importância está relacionada à diversificação das fontes de energia e à expansão de sistemas de baixo carbono.

Eletrônicos e telecomunicações

Smartphones, computadores, telas, sistemas de áudio e equipamentos de comunicação utilizam terras raras em componentes magnéticos, materiais luminescentes e dispositivos ópticos. Suas propriedades permitem melhorar o desempenho de determinados componentes, reproduzir cores em telas, viabilizar tecnologias compactas de comunicação e armazenamento de informações.

Equipamentos médicos e diagnóstico

O gadolínio é utilizado em determinados agentes de contraste empregados em exames de ressonância magnética. Compostos de lutécio, por sua vez, são empregados em detectores de equipamentos de medicina nuclear, incluindo sistemas de tomografia por emissão de pósitrons (PET). As aplicações do gadolínio e do lutécio contribuem para o desenvolvimento de tecnologias de diagnóstico e para a melhoria da capacidade de obtenção de imagens médicas.

Defesa e segurança nacional

As terras raras são empregadas em ímãs de alto desempenho, sistemas de comunicação, equipamentos aeroespaciais, sensores, radares e determinados sistemas de orientação e controle. Sua utilização em aplicações militares e aeroespaciais torna o acesso confiável a esses materiais uma questão de segurança nacional, especialmente para países que dependem de tecnologias avançadas de defesa.

Defender o potencial brasileiro em terras raras significa defender a capacidade de o país decidir como seus recursos serão explorados, quais benefícios permanecerão em seu território e como essa riqueza irá contribuir para um futuro inovador, sustentável e soberano.

Terras raras no Brasil: potencial mineral e dependência industrial

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas ainda precisa transformar essa riqueza mineral em autonomia industrial e tecnológica. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), o país detinha 11,4 milhões de toneladas em reservas em 2024, cerca de 13,9% do total mundial estimado naquele ano.

Apesar do tamanho das reservas, a produção brasileira de terras raras permanece limitada. Em 2025, o Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras, exportou US$ 14,9 milhões em concentrado e importou US$ 30,6 milhões em produtos da transformação mineral, incluindo óxidos e ímãs, conforme dados divulgados pela ANM em outubro de 2026.

A dependência brasileira em terras raras não se resume à disponibilidade de matéria-prima: envolve também o domínio das tecnologias de separação e refino, a fabricação de componentes e a capacidade de desenvolver produtos finais. Por isso, fortalecer a pesquisa científica, a infraestrutura de processamento e a indústria nacional é fundamental para que o Brasil participe de forma mais estratégica das cadeias globais.

Quais estados concentram as principais ocorrências de terras raras?

Segundo o Sumário Mineral Brasileiro de 2025 da Agência Nacional de Mineração (ANM), esses são os locais que mais concentram terras raras no Brasil.

EstadoMunicípios ou áreasTipo de depósitoSituação
GoiásMinaçu e Nova RomaArgilas iônicas (Minaçu)Produção comercial desde 2024 em Minaçu (Serra Verde); projeto em desenvolvimento em Nova Roma
Minas GeraisAraxá, Poços de Caldas e TapiraComplexos alcalinos e carbonatíticosProjetos em desenvolvimento na região de Poços de Caldas
BahiaDiferentes regiões do estadoOcorrências registradas na ANMÁreas de pesquisa ativas
AmazonasPitingaGranitos e pegmatitosOcorrência em contexto amazônico, com exigências especiais de licenciamento
São PauloJacupiranga e ItapirapuãComplexos alcalinos e carbonatíticosOcorrências identificadas, sem exploração comercial em andamento

Mapa das reservas de terras raras no Brasil. Fonte: DNMP /  Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Por que as terras raras são tão disputadas no mundo? 

As terras raras são essenciais para setores estratégicos da economia, incluindo a indústria de alta tecnologia, a transição energética e a defesa. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda por terras raras empregadas em ímãs dobrou desde 2015, refletindo a expansão dessas tecnologias.

A disputa é intensificada pela concentração internacional da cadeia produtiva. Em 2024, a China respondeu por aproximadamente 60% da produção mineral mundial de terras raras usadas em ímãs e 91% do processamento, segundo a IEA. Esse resultado confere ao país influência sobre o abastecimento global e deixa outras economias vulneráveis a restrições comerciais e interrupções no fornecimento.

Os controles chineses às exportações de terras raras e produtos relacionados, ampliados em 2025, evidenciaram esses riscos para setores como automóveis, eletrônicos e defesa. Em resposta, os Estados Unidos têm buscado diversificar fornecedores, ampliar a produção doméstica e fortalecer parcerias internacionais para reduzir sua dependência externa.

Como transformar as terras raras em desenvolvimento para o Brasil?

Transformar as terras raras em desenvolvimento exige uma política industrial de longo prazo, capaz de converter potencial mineral em conhecimento, inovação e empregos qualificados. Para isso, o Brasil precisa priorizar medidas concretas:

Ampliar a pesquisa científica

Financiar universidades e centros de pesquisa para desenvolver métodos de extração, separação e processamento mais eficientes e ambientalmente responsáveis.

Financiar tecnologia nacional

Criar linhas de crédito e incentivos à inovação para empresas brasileiras desenvolverem processos industriais e produtos de maior valor agregado.

Formar profissionais especializados

Fortalecer cursos técnicos e superiores em engenharia de materiais, química, mineração e metalurgia, aproximando instituições de ensino das demandas industriais.

Beneficiar e refinar no Brasil

Instalar e consolidar unidades de separação e refino para reduzir a exportação de matéria-prima pouco processada.

Produzir ímãs permanentes

Estimular a fabricação nacional desses componentes, essenciais para motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos.

Investir em reciclagem

Desenvolver tecnologias para recuperar terras raras de equipamentos eletrônicos, motores e outros produtos descartados, diversificando as fontes de abastecimento.

Fortalecer a indústria de transformação

Articular mineradoras, fornecedores, centros tecnológicos e fabricantes para ampliar a produção nacional de componentes e equipamentos.

Essas medidas precisam ser acompanhadas de metas, continuidade dos investimentos e critérios socioambientais rigorosos. Parcerias internacionais podem contribuir com capital e tecnologia, desde que promovam capacitação local e fortaleçam a indústria brasileira. O objetivo é fazer com que a riqueza das terras raras gere conhecimento, inovação e renda no Brasil, e não apenas receita com a exportação de recursos naturais.

Terras raras e conservação ambiental: soberania também é proteger os territórios

Uma riqueza mineral só representa desenvolvimento quando sua exploração não compromete a riqueza natural e social dos territórios.

No caso das terras raras, os riscos precisam ser avaliados desde o início: a mineração e o processamento podem consumir grandes volumes de água, gerar rejeitos e efluentes com substâncias tóxicas e, dependendo da composição do minério, mobilizar elementos radioativos, como tório e urânio, como destaca uma revisão publicada no Journal of Hazardous Materials por Han et al. (2025).

A composição mineralógica, as características geológicas do depósito e a técnica de extração determinam os perigos e sua intensidade. Por isso, cada projeto deve passar por avaliação específica de viabilidade ambiental. O licenciamento precisa ser rigoroso, acompanhado de fiscalização contínua, monitoramento transparente e participação efetiva das comunidades afetadas.

Proteger os territórios também significa reconhecer os direitos de quem vive neles. Plantas, animais, povos indígenas, comunidades tradicionais e populações locais não podem ser tratados como obstáculos ao empreendimento, mas como sujeitos de direitos nas decisões que afetam suas águas, seus modos de vida e seus ambientes.

A expansão da mineração não deve justificar a degradação de ecossistemas insubstituíveis nem transferir os custos ambientais para quem menos se beneficia economicamente.

Veja: Biodiversidade Ameaçada – Entenda o que está acontecendo com as espécies no mundo!

Como defende a GreenBond Conservation, soberania não é apenas decidir o destino de um recurso: é assumir responsabilidade pelo território e pelas pessoas que sustentam sua riqueza. O Brasil pode cooperar com investidores e parceiros internacionais, desde que estabeleça regras claras, exija contrapartidas e mantenha sua capacidade de fiscalizar.

Afinal, toneladas extraídas e receitas exportadas não bastam para medir o sucesso de uma estratégia mineral. Água protegida, biodiversidade conservada e direitos respeitados também precisam fazer parte dessa conta.

Quer saber mais sobre biodiversidade, conservação ambiental e os desafios que conectam natureza e desenvolvimento?

Acesse o site da GreenBond Conservation e explore conteúdos, iniciativas e soluções para construir um futuro em que proteger a natureza seja parte essencial do progresso.

Redação: Manoel Pontes

Revisão: Diego Arruda