Muro de Trump trará consequências irreparáveis para o meio ambiente

Já existem 56 postos de controle e barreiras em quase 1/3 dos quase 3,2 mil quilômetros da fronteira dos EUA com o México. Esse trecho mostra cerca que separa o povoado de Tijuana, no México (à direita) de San Diego, nos Estados Unidos   – Foto: Domínio Público

O presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, pediu a liberação de US$ 5,7 bilhões (R$ 21,5 bilhões) ao congresso americano (de maioria democrata) para a expansão do muro na fronteira entre o México e os EUA com o objetivo de impedir a entrada de imigrantes ilegais pelo sul do país. Como o plano não foi aprovado, Trump se recusava a assinar qualquer medida que não incluía recursos para o projeto. Esse impasse durou 35 dias, a mais longa paralisação parcial do governo americano na história.

Em janeiro, o presidente cedeu e assinou uma lei que permitia financiar o governo federal até a próxima sexta-feira (15) que não incluía recursos para a construção do muro. Agora, republicanos e democratas fizeram um novo acordo provisório que prevê uma verba de aproximadamente 1,3 bilhões de dólares para construir 88,5 quilômetros de muro, bem longe da proposta inicial do presidente.

Carro da polícia americana faz patrulha beirando o muro na fronteira de EUA e México na dunas de Algodones, Califórnia – Foto: Domínio público

No entanto, além dos problemas de imigração, que estão sendo muito discutidos, uma questão está sendo deixada de lado: Quais as consequências que o muro traria para o meio ambiente?

“Independentemente do que for construído, será prejudicial ao habitat natural” disse Bob Dreher, advogado que lidera os programas de conservação Defenders of Wildlife, em entrevista para a National Geographic

Ameaças ao meio ambiente

Com mais de 3 mil quilômetros a fronteira dos Estados Unidos com o México é uma região rica em biodiversidade que inclui 6 biomas diferentes, composta por desertos, bosques e pântanos de água doce e de água salgada. Os muros representam uma barreira para animais e plantas nativos, aumentam a erosão do solo, alteram os fluxos hídricos naturais e os padrões de queimadas, atuam como represas e causam enchentes durante a temporada de chuvas

As onças-pintadas costumavam andar pelas margens do Rio Grande, mas praticamente desapareceram do Texas: en:User:Cburnett/Creative Commons

Cerca de 115 espécies encontradas nos EUA ficariam separadas de 50% ou mais de seu habitat ao sul da fronteira, segundo artigo da revista científica Bioscience. Essa divisão física separa populações, limita a capacidade de animais circularem para procurar alimentos, água e parceiros. Além disso, o muro impede que animais selvagens escapem de queimadas, inundações ou ondas de calor e atrapalham migrações de mamíferos que circulam entre os dois países.

A impossibilidade de cruzar a fronteira fragmentou populações de antilocapras e diminuiu as chances de restabelecimento das colônias de lobos-cinzentos, onças-pintadas e jaguatiricas no lado norte-americano. Chris Bugbee, pesquisador sênior do CATalyst, disse na página do grupo no Facebook. “Se alguma vez existisse uma barreira física sólida que abrangesse toda a fronteira, como planejado por nossa atual administração, seria game over para onças-pintadas e jaguatiricas neste país. Esse destino é inaceitável.”

A construção do muro pode levar à extinção da jaguatirica nos EUA – Foto: United States Fish and Wildlife Service/ Domínio público

A limitação da migração também impacta a dispersão de sementes de algumas espécies e, em alguns casos, a germinação ficaria prejudicada, já que algumas sementes  precisam passar pelo sistema digestório de animais para se desenvolver.

Presidente dos EUA, Donald Trump, visitando protótipos de muro de fronteira em San Diego em março de 2018 – Foto: Domínio público

Acreditava-se que o Rio Gande, a fronteira oficial entre México e EUA era um obstáculo natural à construção de uma barreira. O canal do rio muda de tempos em tempos e, caso os EUA optassem por construir o muro ao norte, cederiam o controle das terras que ficariam ao sul para o México, isolando propriedades de cidadãos americanos do lado do país vizinho.

Mas esse pensamento mudou e o congresso já aprovou verba para o inicio das obras ao norte do rio. As propostas incluem muros que irão atravessar sete áreas de preservação de vida selvagem no Texas. O Centro Nacional de Borboletas do estado foi notificado de que o muro irá colocar 70% do santuário do lado mexicano.

Mas a principal ameaça é que a construção do muro não precisa atender as exigências de mais de 30 das leis ambientais mais rigorosas dos EUA. A Lei das Espécies em Extinção, a Lei Nacional de Políticas Ambientais, a Lei do Ar Puro e a Lei da Água Limpa não se aplicam nesse caso graças à Lei REAL ID, aprovada pelo Congresso Americano em 2005 em resposta aos ataques terroristas de 11/09. Ela autoriza o Departamento de Segurança Interna a deixar de cumprir qualquer lei em nome da segurança nacional.

Janet Napolitano, ex-governadora do estado de Arizona e secretária de Segurança Interna do Presidente Barack Obama, ficou famosa por sua declaração: “Mostre-me um muro de 15 metros que lhe mostrarei uma escada de 16 metros”. Na foto, dois homens escalam a cerca da fronteira entre México e EUA em Douglas, Arizona – Foto: Domínio público

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