Viagem a Sumatra: um encontro com os orangotangos

By agosto 18, 2021Não categorizado

Os orangotangos são grandes primatas de hábito arborícola, pelo avermelhado, um cérebro complexo e com ausência de rabo. Fazem parte do grupo dos antropóides,  macacos com bastante semelhança com humanos, e estão no mesmo grupo dos chimpanzés, gorilas e bonobos.  

Nativos da Indonésia e da Malásia, hoje só são encontrados nas florestas tropicais de Bornéu e Sumatra e seu estado de conservação é extremamente preocupante. Isso se deve a diversas ameaças como a caça e  a destruição de seus hábitats. 

Hoje, no dia mundial dos orangotangos, contaremos um pouco sobre a experiência do nosso biólogo Gustavo Figueroa, no turismo com os Orangotangos-de-Sumatra (Pongo abelii).

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

Nossa história começa com um outro sonho de Gustavo. Ver de perto Dragões de Komodo (Varanus komodoensis) . Estes lagartos só são encontrados nas Ilhas de Komodo e, movido pelo desejo de encontrar estes gigantes, Gustavo planejou sua viagem à Indonésia. Completamente apaixonado pela fauna em geral, Gustavo também incluiu a Sumatra no roteiro, onde poderia observar de orangotangos em vida livre.

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

“Comecei procurando um centro de reabilitação de orangotangos, já que lá tem alguns, e aí vi um lugar que é onde eles soltam os orangotangos. Têm os orangotangos já da floresta, uma população já estabelecida… e eles fazem soltura nesse parque nacional que chama Parque Nacional de Gunung Leuser. Entrei em contato com uma agência que fazia esse passeio pelo Parque Nacional e fechei um pacote de cinco dias.”, nos conta Gustavo. 

 

Indo até o destino

O acesso até o parque não é dos mais fáceis. Até chegar ao destino é preciso sair do Brasil e ir até Bali, na Indonésia. De Bali pegar um voo até Medan, capital da província Norte de Sumatra e depois pegar uma “estrada péssima”, de acordo com Gustavo, em um trajeto de cinco horas até chegar em um vilarejo. 

Figueiroa nos conta que nessa estrada, só se vê plantação de palma, a grande responsável por desmatamentos na região e infelizmente pela mortes de muitos orangotangos. Do vilarejo é preciso seguir a pé por mais meia hora até chegar em uma vilazinha e de lá, finalmente, sair em caminhada mata adentro no parque nacional em busca dos bichões. Uma busca que dura  em torno de 3 dias.

E o passeio é uma aventura mesmo, pois nesses três dias você acampa no meio da mata, bebe água e toma banho de rio e as comidas são cozidas lá mesmo, ovo, macarrão e arroz. Claro que têm os guias que irão acompanhar e conduzir durante todo o tempo, mas não é moleza, não viu? E olha que tem passeio que pode durar até 10 dias! Tudo a pé e sem luxo nenhum. Natureza pura!

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

E começa a aventura

Já no primeiro dia, Gustavo e seu grupo, avistaram com pouco menos de uma hora de trilha, um grande macho se alimentando de folhas no alto de uma árvore. “Mais pra frente no caminho, a gente viu um jovenzão que tava lá tirando onda com a gente, ele desceu (da árvore). Alguns desses que foram reintroduzidos, chegam mais próximos dos humanos. Eles já tiveram esse contato então não têm muito medo. Aí ele chegava, descia da árvore e tentava pegar coisa da nossa mochila.”, relata Gustavo. 

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

O segundo dia foi cheio de encontros e aventuras inusitadas, com direito até a perseguição de orangotangos! 

As trilhas da mata são muito estreitas e não tem outro caminho, que não seja segui-las, pois a floresta é bastante densa. Essas trilhas são utilizadas tanto pelos humanos quanto pelos orangotangos.

“A gente tava passando, estávamos em fila, tinha dez pessoas na nossa turma, contando com os guias, e aí a gente olhou pro lado e tinha uma mãe com um filhote mamando nela. A gente achou muito massa, começou a tirar foto e eu passei na frente, eu e mais três pessoas do grupo, pra pegar um ângulo melhor e nisso a mãe saiu do meio do mato e parou no meio da trilha, dividindo nosso grupo.” Conta Gustavo.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

“Aí ela começa a vir na nossa direção com o filhote agarrado nela, parece uma bolsa, e nisso vem outro filhote, que é um jovenzão grandão e ele sai também e vem na nossa direção, ai o guia fica tipo ‘vamo, vamo, corre, corre, corre’ e começamos a correr… Ela começa a vir atrás da gente e a gente com passo acelerado. Andamos por meia hora com nosso grupo separado e os orangotangos no meio e aí tem uma parte que o grupo consegue passar os orangotangos e todo mundo se junta de novo. A gente começa a andar e fala ‘pronto, despistamos eles né’ e então paramos na beira de um riacho para comer.”, Lembra Gustavo.

“Sempre que a gente vai comer, os guias abrem um plástico para colocar no chão para a gente sentar e fazer tipo um piquenique. Na hora que ele abriu o plastiquinho e colocou no chão, quando ele começou a preparar comida, começou a descascar os tomates, o outro guia: ‘ó eles estão vindo, estão vindo’ daí não deu nem tempo. A gente largou as comidas lá. Caí dentro do rio, fui tentar correr e caí dentro do riachinho, era um riachinho pequeno, não era muito fundo. Aí eles já vieram, a mãe já entrou pegando nossa comida. A gente já foi pra dentro do rio porque no rio eles não entram, eles tem medo de água e a gente ficou olhando de lá.”, relata Figueiroa.

Pouco tempo depois, o jovem sobiu em uma árvore e a fêmea em outra. A mãe acabou atravessando para o outro lado  utilizando a árvore, liberando assim o caminho para que o grupo de turistas pudesse correr para longe.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

O perrengue continua

“A gente andou umas duas horas sem parar para descansar (…), depois de umas duas horas, a gente sem almoçar, perdeu metade do almoço que eles roubaram, já era umas duas horas da tarde, sete horas andando que nem louco, a gente não aguentava mais, aí falamos ‘vamo parar em algum lugar aqui pra comer pelo amor de Deus’. Aí o guia ‘Não, vamos andar mais’… andamos mais uma hora até chegar em um lugar que o guia falou ‘Acho a gente despistou ela já, dá pra comer.’… A gente parou de novo, ele conseguiu montar o resto da comida, a gente começou a comer, mas ele falou ‘ó fica com as mochilas próximas porque pode ser que ela apareça de novo’. Ai umas amigas minhas largaram as mochilas, elas estavam muito cansadas, e eu com a minha mochila nas costas já. Eu terminei de comer e uma amiga minha não aguentou comer tudo e falou ‘quer o resto?’ e eu como bom taurino falei ‘lógico’. Eu peguei e comecei a comer o troço dela ai o guia ‘mano, eles tão aqui!’ … Só que na hora que ele falou, eles já estavam em cima mesmo, não deu nem tempo. Na hora que ele falou ‘eles estão aqui’ eu levantei pra correr, na hora que eu dei dois passos eu senti minha mão sendo segurada, parecia que eu tinha sido algemado num poste, travou minha mão. Na hora que eu olhei pra trás era a fêmea, a mãe, me segurando. ” Conta Figueiroa.

 

Medo na hora, história de aventura depois

“Foi muito forte, fez marca no meu pulso. Ficou marcado os dedos dela no meu braço. Eu olhei e ela sentada me segurando, olhando pra mim e nisso eu olhei pro lado e só lembro da cena do jovenzão vindo na minha direção… e daí ele segurou a mão que eu estava com a comida (…) ele veio e pegou meu rango, saiu fora e na hora que a mãe viu que ele saiu fora, ela me soltou. Ela segurou pro filho dela pegar minha comida.”, conta Gustavo.  

“Ela me soltou e nisso ela segurou a mão da minha outra amiga que tava comigo e o jovenzão foi lá e também pegou a comida dela. Aí a gente desceu, mas não correu porque eles ficaram com as comidas lá, eles começaram a correr e não vieram mais atrás da gente. Ficamos a uns cinco metros olhando eles comendo e foi muito doido porque minhas amigas deixaram todas as coisas lá e o guia falou ‘vamos indo, vamos indo se não eles vão continuar atrás da gente, depois a gente pega as coisas que vocês deixaram aqui’. Elas deixaram mochila, garrafa d’água, tudo lá.” Relata Gustavo.

“Antes de ir embora eu lembro que eu vi a cena da fêmea que pegou uma garrafa d’agua da minha amiga e era de rosquear, ai ela ficou olhando, tentou puxar, não conseguiu e depois ela desrosqueou o bagulho e tomou água da garrafa!!!!! Falei ‘noooossa, não acredito velho’… Aí a gente teve que ir embora pra eles não continuarem indo atrás da gente, mas foi muito doido, foi uma experiência f*dástica! A gente continuou andando e chegou até o acampamento que a gente ia dormir na beira do rio. (…)  A gente chegou no rio para tomar banho, era um rio grande que tinha lá, mas não era muito fundo não, era um rio de pedra. Na hora que a gente tava tomando banho lá a gente viu um lagarto monitor descendo e vindo atrás de peixinhos e moluscos para comer e eu, todo ensaboado, sai do rio para ficar olhando ele.”, completa Gustavo.

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

Último dia 

A trilha na mata é apenas de ida. A volta é por meio do rio, onde cada um desce em boias com suas coisas. “Você anda três dias e no último dia, no último acampamento, (…) a gente volta boiando em umas bóias de pneu de caminhão pelo rio. E é um rio de corredeiras, tem umas partes que são meio tensas”, conta Gustavo. 

Com mais essa aventura aquática, os amigos retornaram para a vilazinha, que fica na beira do Parque Nacional e lá avistaram ainda mais dois orangotangos, para fechar com chave de ouro o passeio!

Por essa história, percebemos que não é um programa para qualquer um. Não é como um safári em que os animais estão habituados aos carros e você vai embora caso não goste. É uma aventura no meio da floresta vivendo todas as experiências possíveis, ciente de que caso aconteça algo com você, a responsabilidade é toda sua. Justamente por isso, antes mesmo de embarcar nessa aventura, é necessário assinar um termo assumindo sua responsabilidade frente aos acontecimentos. É um ambiente nada controlado em que há tigres, ursos, primatas e diversos outros animais selvagens. Claro que tem os guias para orientar e guiar os turistas da melhor forma possível, além de kits de primeiros socorros, porém acidentes podem acontecer.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

Outros avistamentos

Além de encontrar os orangotangos e o lagarto monitor em seu percurso pelo Parque Nacional, Gustavo também viu algumas espécies de aves, cobras e Gibão Preto, que inclusive pegou uma banana da mochila de sua amiga.

 

Impactos 

Querendo ou não, este turismo acaba causando impactos ambientais, pois há a interferência humana e, como os orangotangos acabam pegando comida dos turistas, eles podem contrair algum tipo de doença. Mas analisando todos os fatos, o impacto positivo é muito maior, como nos contou Gustavo, “é um local muito pobre que sofre uma pressão gigante para desmatar. É o lugar que foi mais desmatado do mundo, venceu a Amazônia… e é muito menor que ela, então está em uma taxa absurda de desmatamento lá. 

Fora que animal lá é tratado que nem lixo por grande parte da população, então eles estão em uma situação muito vulnerável, realmente o negócio é desesperador e esse tipo de turismo é o que mantém aquilo ali, o que mantém aquela vila. O turismo para conhecer o parque, para ver os orangotangos é o que mantém aquela vila então eu vejo como essencial.”

O que ajuda a preservar a região é esse ecoturismo pois “Quando você gera renda para a população local, se vem alguém querendo desmatar, o cara pode pensar duas vezes e falar ‘não, mas

eu  vivo disso aqui, tô de boa’, agora se o cara não ganha nada com aquilo, vem alguém e oferece uma grana para derrubar aquilo ali ele fala ‘então vai’. Então você conhecendo dessa forma, você tá fazendo parte dessa cadeia que tá mantendo a floresta de pé”, conta Gustavo.

Conhecer um animal que pode ser extinto nas próximas décadas, já que eles estão muito ameaçados de extinção, e em vida livre ainda por cima, é de uma relevância muito grande. Principalmente porque passamos a valorizar ainda mais o animal e a querer que eles estejam aqui preservados. Começamos a entender mais sobre eles e sobre as ameaças que estão enfrentando, que são muitas.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

Por fim…faria diferente

Apesar de ter gostado muito e achado uma experiência incrível, Gustavo nos contou que faria diferente…mas calma que não é um diferente ruim, é um diferente bom! Ele nos contou hoje, com certeza, aumentaria o tempo do passeio, escolhendo um pacote de até 10 dias na floresta! Imagina? 

Mas a verdade é que essa aventura não é pra todo mundo, eu mesma depois desses causos, pensei duas vezes antes de querer fazer esse tipo de turismo. Mas assim …quem sabe um dia, né? 

Para isso, precisamos, antes de ludo, lutar para a conservação dos orangotangos e evitar que eles sejam extintos.

E aí? Curtiu a história? Você já fez algum ecoturismo assim? Conta pra gente!

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

 

 

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