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Personagens da conservação

Bond da Conservação: Alan Rabinowitz

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Geralmente começamos o texto deste quadro de “Personagens da Conservação” com nossa introdução base e desenvolvemos o restante com a trajetória do profissional e seus feitos, mas se vocês leitores me permitirem, hoje gostaria de iniciar de uma forma diferente. 

Eu confesso que quando me pediram para escrever sobre o Alan eu não o conhecia. Não sabia o que tinha feito, apenas que trabalhava com felinos. Pois bem, nas minhas buscas de material para o Blog, me deparo com uma coluna do ((o))eco em que o biólogo Fernando Fernandez escreve sobre um podcast que ouviu do “The Moth” em que Alan Rabinowitz conta sua história. Logo pensei “nada melhor para conhecer a história de alguém do que ouvi-la da própria fonte”. 

E lá vou eu ouvir os 18 minutos de uma história intitulada “Man and Beast” (Homem e Fera). Eu não sou de emocionar, mas fiquei com lágrimas nos olhos do início ao fim. 

Desta forma, é assim que iniciaremos este quadro, irei contá-los esta história, e  para quem entende inglês não deixe de ouvi-la pois é fantástica. Link do podcast: clique aqui. 

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

Podcast Man and Beast

A infância

Nossa história começa em 1958 com um menino de 5 anos visitando o Zoológico do Bronx, NY. O pequeno Alan vê uma velha onça fêmea em sua jaula e se pergunta o que ela fez para estar naquele local. Então se inclina um pouco e começa a sussurrar algo para a onça, mas seu pai logo se aproxima e pergunta o que ele está fazendo.

Alan iria explicar, mas sua boca trava, bem como ele já imaginava  que iria acontecer pois, “tudo na minha infância naquela época era caracterizado pela minha incapacidade de falar”. Desde criancinha Alan sofria de uma gagueira severa, mas não uma gagueira de repetição de sílabas, e sim um completo bloqueio de fluxo de ar que ao tentar falar provocava grandes espasmos.

Nesta época ninguém sabia o que fazer. Havia poucos estudos sobre a gagueira e não havia internet ou computadores para facilitar as pesquisas como temos hoje. Na escola as coisas eram ainda mais complicadas. A solução do sistema de ensino foi colocar Alan na sala de alunos com distúrbios, e apesar dos protestos de seus pais, a escola alegava que essa era única saída, uma vez que toda vez que tentava falar incomodava a todos.

 

 

A grande descoberta

“Eu passei toda minha infância me perguntando porque os adultos não podiam ver dentro de mim, porque eles não podiam ver que eu era normal e que todas as palavras estavam dentro de mim e que elas apenas não saiam.”…“Felizmente desde novo aprendi o que muitos gagos aprendem em algum momento: você pode fazer pelo menos duas coisas sem gaguejar. Uma delas é cantar. A outra é que você pode falar com os animais.” Afirmou Alan.

Todos os dias ao voltar da aula, que as outras crianças chamavam de “a aula dos retardados”, Alan ia direto para seu quarto e entrava em seu closet. Sentava-se no  cantinho mais escuro, fechava a porta e levava consigo seus animais de estimação: hamster, gerbil, tartaruga, um camaleão e uma cobra de jardim.

Então conversava com seus pets, falava fluentemente com eles. Falava suas esperanças, seus sonhos, como as pessoas eram estúpidas por acharem que ele era estúpido. “E os animais ouviam, eles sentiam. E eu percebi que eles sentiam pois eles eram iguais a mim. Os animais têm sentimentos e também tentam transmitir coisas para nós, mas não tem uma voz humana então as pessoas os ignoram, os entendem errado, os machucam e às vezes os matam.” Alan conta. “Eu prometi aos animais quando era jovem que se eu algum dia encontrasse a minha voz, eu tentaria ser a voz deles.” 

Alan vivia em dois mundos: no mundo em que ele se considerava ‘normal’, onde ele conseguia falar com os animais sem dificuldades e no mundo dos seres humanos, onde não conseguia. Seus pais tentaram de tudo, várias terapias, remédios, psicólogos, mas nada funcionava.

 

A juventude

Passou por todas as fases da escola até a faculdade e no caminho foi lidando com a gagueira por meio de isolamento, não conversando, evitando situações e pessoas. Era um excelente aluno e bom nos esportes, inclusive fazendo parte dos times de luta e de boxe, mas não fazia por gosto e sim para aliviar a raiva e frustração que vivia.

“Na época que era veterano na faculdade, eu nunca tinha tido um encontro com uma garota, nunca tinha beijado uma garota, exceto minha mãe, e nunca tinha falado uma frase completamente fluente em voz alta para outro ser humano.” Conta Alan.

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

O tratamento

No meio do último ano de faculdade, os pais de Alan ficaram sabendo de um programa experimental bastante intenso em Geneseo, uma cidade de Nova York,  onde o jovem ficaria dois meses direto para tratar a severa gagueira e, apesar de muito caro, os pais não mediram esforços para que ele fosse. Venderam algumas coisas e mandaram Alan para Geneseo. 

“Aquela clínica mudou a minha vida. Ela me ensinou duas coisas importantes: a primeira é que eu sou gago e sempre serei gago. Não existe uma pílula mágica e eu não vou acordar pela manhã, como sempre sonhei, sendo fluente na fala. A segunda coisa, a mais importante, se eu fizesse o que eles estavam me ensinando, se usasse as ferramentas, se aprendesse a mecânica para controlar mecanicamente a minha boca e o fluxo de ar, se eu trabalhasse duro, poderia ser um gago fluente. E eu trabalhei duro e foi inacreditável! Em 20 anos eu finalmente pude falar!” Relata Alan.

Finalmente nosso Alan estava experimentando uma nova fase. Claro que foi trabalhoso, enquanto falava precisava pensar e controlar o fluxo de ar e outras coisas, mas nada disso importava para ele pois agora a vida seria diferente, ele voltaria para a escola e iriam aceitá-lo. 

 

As mudanças

As coisas de fato foram diferentes, mas no exterior, pois em seu interior ainda se sentia aquela mesma pessoa gaga, frustrada, que cursava medicina não porque gostava, mas para quando se formasse e fosse médico, as pessoas gostassem dele, falassem com ele e o valorizassem. Ele não gostava de trabalhar com pessoas, não gostava de ver os animais de laboratório na situação em que se encontram e o próprio trabalho era frustrante.

Então, no seu último semestre abandonou a faculdade e entrou para a Universidade do Tennessee no curso de biologia e zoologia de animais silvestres. “Então no meu primeiro ano eu estava nas Great Smoky Mountains estudando ursos negros e quando eu estava na floresta com os animais, eu estava em casa. Isso é o que eu nasci para fazer. Estar na floresta sozinho com os animais era meu closet do mundo real. Isso era o que me fazia sentir bem. (…) Era como eu deveria viver minha vida.” Conta Alan.

Logo após seu título de PhD, conheceu George Schaller, um grande zoólogo pioneiro em estudos de animais em campo utilizando radiotransmissores e precursor no estudo de onças pintadas. “Nós passamos um dia juntos seguindo ursos nas Smoky Mountains e no final do dia, George disse para mim: ‘Alan, você gostaria de ir para Belize e ser um dos primeiros a estudar onças pintadas na selva?’ O primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi ‘onde diabos é Belize?’ Mas a primeira palavra que saiu da minha boca 30 segundos depois foi ‘é claro que eu vou’.¨ Lembra Alan (Belize é um país da América Central perto da Guatemala, apenas situando os Alans de plantão!) 

 

O início do trabalho com as onças

Dois meses depois, Alan fez suas malas e dirigiu de Nova York até a América Central. Em Belize. Lá ele aprendeu muito. Aprendeu com os caçadores como capturar onças, aprendeu a segui-las e a estudá-las. Estava vivendo a vida dos sonhos. Apesar das dificuldades com doenças, picadas de animais peçonhentos, estar na natureza e fazer o que amava era como estar no céu. Alan estava feliz, confortável e sentiu que aquilo era o que poderia fazer para o resto da vida.

Mas ele não podia. Não podia porque percebeu que enquanto ele estava capturando e estudando as onças, elas estavam sendo mortas na frente dele, tanto as da área de estudo quanto as de fora dela. “Eu podia ficar sentado na selva, mas aí não estaria sendo fiel comigo mesmo e o mais importante, eu não estaria sendo fiel com a promessa que fiz aos meus animais no meu closet que eu seria a voz deles. E eu tinha a voz agora.” Disse Alan.

 

Alan Rabinowitz. Foto: https://myhero.com/

 

Travando a luta pela conservação das onças 

Foi então que Alan percebeu que teria que voltar à realidade. Teria que voltar para o mundo das pessoas e tentar lutar de alguma forma para salvar as onças. Ironicamente ele percebeu que para salvar estes animais ele não teria apenas que voltar para o mundo das pessoas, mas teria que tentar alcançar o governantes, teria que falar com o primeiro-ministro. 

Seis meses depois estava na porta do primeiro-ministro. Tinha ganhado 15 minutos para expor suas ideias e não tinha  a menor ideia do que falar. “Eu tinha 15 minutos, não podia gaguejar. Não podia distraí-los do ponto central que era salvar as onças. Eu tinha que usar tudo que tinha aprendido e ser um falante completamente fluente e convencer um dos países mais pobres da América Central, que não possuía nenhuma área protegida naquela época, no qual o turismo não era valorizado, de que eles tinham que salvar onças.” Conta Alan.

Uma hora e meia depois foi em votação a criação da primeira reserva de proteção de onças do mundo. “…e eu prometi para eles que iria funcionar. Eu prometi que mostraria para eles que geraria benefícios econômicos.” Lembra Alan.

 

De volta à selva 

Um mês depois, Alan estava de volta à selva, seguindo suas onças pelo rastro. Ele conhecia todas as onças da sua área de estudo pelas pegadas. Mas neste dia ele encontrou uma pegada nova, a maior pegada de uma onça macho que ele havia visto em toda a vida.  “Eu sabia que deveria segui-la.” Ele precisava ver, saber o que o macho  fazia, se ele vinha de fora, se só estava de passagem.

 

E então ele seguiu os rastros. Seguiu por horas até perceber que estava ficando escuro e não queria ser pego na floresta à noite, principalmente sem lanterna. “Então eu me virei para voltar para o acampamento. Assim que me virei, lá estava ele, a menos de 5 metros atrás de mim. Aquela onça, que eu estava seguindo, tinha dado a volta ao meu redor e estava me seguindo enquanto eu seguia ele. Ele poderia ter me matado a qualquer momento, poderia ter me pegado e eu nem estava ouvindo ele. Eu sei que deveria estar apavorado, mas eu não estava… Instintivamente me abaixei e a onça se sentou. E eu olhei em direção aos olhos dele e me lembrei do pequeno garoto olhando para a triste e velha onça do Zoológico do Bronx. Mas este animal não estava triste. Nos olhos deste animal havia força, poder, certeza de um propósito. E eu percebi que o que eu estava vendo nos olhos dele era o reflexo do que eu estava sentindo também. Aquele pequeno garoto triste e aquela onça infeliz eram agora tudo isso.” Conta Alan

“Repentinamente eu fiquei com medo, eu sabia que tinha que ficar com medo, então eu me levantei e dei um passo para trás. A onça se levantou também. Ele se virou e começou a andar em direção a floresta. Depois de 3 mstros, ele parou e se virou para olhar para mim. Eu olhei para aquela onça e me inclinei em direção a ela, assim como havia feito no zoológico do Bronx tantos anos atrás, e sussurrei para ele ‘Está tudo bem agora. Tudo vai ficar bem.’ E a onça se virou e foi embora.” Alan lembra.

Bom, esta é a história. Espero que vocês tenham gostado assim como eu. Mas não para por ai…

 

A luta pela conservação

Após ter estudado as onças pintadas e de ter sido o grande responsável pela criação da primeira reserva de proteção às onças, a Cockscomb Sanctuary and Jaguar Preserve em Belize, Alan Rabinowitz viajou o mundo estudando e lutando pela conservação de leopardos asiáticos, do leopardo nebuloso, tigres, rinocerontes da Sumatra, ursos, gatos leopardo, guaxinins e civetas. 

Trabalhou na Tailândia conduzindo a primeira pesquisa utilizando rádio telemetria em leopardos asiáticos, gatos leopardos e civetas no santuário de vida selvagem Huai Kha Khaeng no mundo. Este trabalho contribuiu para que este santuário se tornasse Patrimônio Mundial da UNESCO. 

Em 1997, agora em Mianmar, descobriu quatro novas espécies de mamíferos, incluindo o cervo-folha, que é considerado a espécie de cervo mais primitiva do mundo. Seu trabalho em Mianmar levou à criação de cinco áreas protegidas. Os resultados das conquistas da conservação incluem o primeiro parque nacional marinho de Mianmar, o primeiro e maior parque nacional himalaio, o maior santuário de vida silvestre  do país e a maior reserva de proteção de tigres do mundo!

 

 

O corredor de onças pintadas

Em seus estudos e pesquisas, Rabinowitz descobriu que não havia subespécies de onças pintadas, geneticamente diferentes, desde os Estados Unidos até a Argentina, era apenas uma espécie. 

Então idealizou e implementou o Jaguar Corridor Initiative, um programa de conservação de áreas de uso das onças, todas conectadas a fim de garantir a integridade genética da espécie. Este corredor vai do norte do México até a Argentina e passa por 18 países.

 

Panthera

Em 2006, co-fundou a Panthera, a única organização do mundo que trabalha exclusivamente em prol da conservação das 40 espécies de felinos selvagens e seus ecossistemas. 

Contando com vários especialistas, a organização possui diversos projetos de conservação. Atua por meio de parcerias com ONGs, governantes ao redor do mundo, populações locais, instituição de pesquisas e todos aqueles que querem ajudar na conservação e futuro dos felinos selvagens.

Também criou um programa de estratégias para reduzir as ameaças enfrentadas pelos tigres, o Tigers Forever. Contou com a ajuda de ONGs, membros da comunidade e governantes para este programa de conservação que consistia em monitorar e não deixar os tigres serem vítimas de caçadores, além de reforçar a aplicação das leis.  

 

Os feitos de Alan Rabinowitz são muitos e suas contribuições são incontáveis. Infelizmente, devido a um câncer, Alan nos deixou em 2018, mas seu legado e objetivos em prol da conservação estarão sempre presentes. Continuaremos a luta por ele, pelos animais e pelo nosso mundo.  

MUITO OBRIGADA ALAN! 

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves
Revisado por Fernanda Sá

Bond da Conservação: Neiva Guedes

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Você conhece as grandes personalidades da conservação? Ao longo dos anos, pudemos contar com alguns heróis que deram início a grandes ideias ou tiveram papéis importantes em determinados projetos de proteção ao meio ambiente. Seus princípios e histórias de vida são uma inspiração para nós, que formamos uma enorme corrente a favor da natureza.  

Vamos explorar a história desses gigantes aqui em nosso blog. A informação é nossa principal arma. Por meio dela, desejamos munir a população de conhecimento, inspirar cidadãos comuns e trazer o maior número de pessoas  para o “lado verde da força”.

 

Hoje vamos falar de uma mulher incrível que mudou a história das araras-azuis e segue lutando pela conservação das espécies. A bióloga, pesquisadora e professora Neiva Guedes!

 

Foto: João Marcos Rosa

 

Neiva Guedes nasceu no dia 10 de Dezembro de 1962, em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Inicialmente, sua vontade era a de cursar medicina e ser pediatra, mas, por precisar trabalhar para ajudar sua família em casa, acabou optando por um curso noturno e optou pela biologia. O que ela não sabia era que isso mudaria para sempre toda a sua vida e a de muitas outras pessoas.

 

Amor a primeira arara 

Foi em 1987, na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, que Neiva se formou bióloga. Pouco tempo depois, realizou um curso de Conservação da Natureza, no qual conheceu o amor da sua vida: a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus). 

Em entrevista concedida para o podcast “Alumnicast”, Neiva conta que, durante o curso, se deparou com uma árvore seca com um grupo de mais ou menos 30 araras e ficou maravilhada, porém, o professor deu a triste notícia de que elas estavam ameaçadas de extinção e poderiam desaparecer em pouco tempo. Neste momento a paixão e a luta pela conservação se iniciou. 

 

 

Foto: Ronaldo Francisco

 

Neiva iniciou suas pesquisas com a espécie em 1990, desenvolvendo seu mestrado intitulado “Biologia Reprodutiva da Arara-Azul (Anodorhynchus hyacinthinus) no Pantanal”. Nascia então o “Projeto Arara Azul” que hoje completa mais de 30 anos na ativa. 

Neiva foi pioneira nos estudos sobre as araras-azuis e sua reprodução e estava determinada a impedir o seu desaparecimento. Entendeu que, além do tráfico de animais silvestres, a falta a e disputa por cavidades em troncos de árvores, que é o local em que as araras fazem seus ninhos, também era um fator determinante que ameaçava a reprodução da espécie. 

 

Foto: Edson Diniz

 

O início do fim…da extinção

Em seu primeiro ano de pesquisa, Neiva cadastrou 54 ninhos de araras para serem monitorados. Andou a pé, pegou carona, andou a cavalo e de trator. Aprendeu a subir nas mais altas árvores e a andar no mato sem nenhuma referência que não fosse a própria natureza. Conversava com peões, cientistas, tomava cafezinho nas fazendas e estava sempre determinada no seu trabalho. Era a verdadeira “mulher das araras” como é chamada na região.

Empenhada em solucionar o problema dos ninhos, Neiva iniciou testes de instalação de cavidades artificiais na região habitada pelas araras e o resultado não poderia ser melhor! Essas cavidades, ou ninhos artificiais, foram aceitos pelas araras e utilizados para a reprodução. 

Por não ter carro ainda, Neiva não tinha toda a autonomia que gostaria para seu deslocamento, porém,  após apresentarem seu projeto para a Toyota, a bióloga virou piloto de teste da marca e passou a dirigir um jipe.  Agora, além de bióloga, alpinista e motorista, Neiva também era piloto de teste. 

Mesmo após finalizar o mestrado, as pesquisas de Neiva não cessaram, continuou com sua missão de aumentar a população de araras-azuis, conservar e entender mais sobre a espécie e suas relações com o meio. 

 

Foto: Cezar Correa

 

Com a união se faz a força

Além das pesquisas, monitoramentos e observações científicas, Neiva sempre contou com o apoio da população local. Vários moradores se sensibilizaram  pela causa e passaram a plantar árvores em suas propriedades, que passariam a serviriam de ninho para as araras no futuro no futuro. Além disso,  passaram a fazer questão de implementar ninhos artificiais em suas propriedades e informar sobre novos ninhos ou novidades que acontecem quando não há pesquisadores em campo. Claro que esse trabalho iniciado pela Neiva só poderia ter rendido bons frutos  ao longo dos anos . A população de araras-azuis, que era de 1.500 indivíduos nos anos 80, passou para 6.500 indivíduos em 2019! 

 

Foto: Instituto Arara Azul

 

Instituto Arara Azul

Em 2003 foi fundado o Instituto Arara Azul, uma ONG presidida por Neiva Guedes que apoia a realização de diversos projetos, inclusive o Projeto Arara Azul. 

O Instituto tem sede em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul e tem como missão “Promover a conservação da biodiversidade, buscando a utilização racional dos recursos naturais e a melhoria da qualidade de vida.” 

Clique aqui para conhecer mais sobre o Instituto e os projetos apoiados.

 

Foto: João Marcos Rosa/NITRO

Por fim…doutora

Em 2009 Neiva se torna doutora em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista defendendo a tese intitulada   “Sucesso reprodutivo, mortalidade e crescimento de filhotes de araras azuis Anodorhynchus hyacinthinus (Aves, Psittacidae) no Pantanal, Brasil.”

 

Fotos: Instituto Arara Azul

 

A realidade é que só temos a agradecer ao universo por  Neiva ter feito biologia e se apaixonado pelas araras-azuis.

A relevância dessa mulher na conservação não está escrita! A quantidade de material inédito produzido, informações que contribuíram para a salvação da espécie da extinção, a visão de que conservação se faz com várias mãos e pensando no ambiente como um todo… Sinceramente? Acho que no dia que a ver pessoalmente, é provável que eu chore de emoção, isso sim! 

Deixamos aqui nossa admiração e agradecimento por tanto! 

 

Foto: Fernanda Fountoura

 

Gostou e quer saber mais? Deixarei para vocês alguns links que possam interessar! 

 

Instagram Neiva: instagram.com/neivaguedes_

 

Instagram Instituto Arara Azul: instagram.com/institutoararaazuloficial

 

Site Instituto Arara Azul: institutoararaazul.org.br

 

Podcast “Mulheres Na Conservação”: O amor desta bióloga pelas araras salvou uma espécie da extinção

 

 

Texto por Anna Michette 

Revisado por Fernanda Sá

Bond da conservação: Karen Strier

By | Personagens da conservação | No Comments

Você conhece as grandes personalidades da conservação? Ao longo dos anos, pudemos contar com alguns heróis que deram início a grandes ideias ou tiveram papéis importantes em determinados projetos de proteção ao meio ambiente. Seus princípios e histórias de vida são uma inspiração para nós, que formamos uma enorme corrente a favor da natureza.  

Vamos explorar a história desses gigantes aqui em nosso blog. A informação é nossa principal arma. Por meio dela, desejamos munir a população de conhecimento, inspirar cidadãos comuns e trazer o maior número de pessoas  para o “lado verde da força”.

Hoje vamos falar de uma mulher incrível que guiou e guia os passos de muitas conservacionistas por aí: Karen Strier.

Mulheres na conservação: Karen Strier | CicloVivo

Karen Strier. Foto: CicloVivo

 

A primatóloga Karen Strier encanta e surpreende pela sua longa e linda carreira. São mais de 38 anos de pesquisa sobre o muriqui-do-norte, espécie ameaçada de extinção e meticulosamente estudada por Karen desde que ela veio pela primeira vez ao Brasil. Foi amor a primeira vista e Karen nunca mais conseguiu abandonar os maiores macacos das américas. 

 

Como tudo começou

Aos 19 anos a cientista partiu para o Quênia realizar um projeto com babuínos, onde desenvolveu uma enorme paixão pelos primatas. Ao voltar tomou a decisão de fazer um pós-doutorado no Brasil, trabalhando com os muriquis-do-norte.

 

Karen Strier is elected president of International Primatological Society

Karen Strier. Foto: news.wisc.edu

 

O amor pelos muriquis-do-norte

Karen chegou ao Brasil em1983, financiada pela universidade de Harvard e passou 14 meses embrenhada nas matas da Fazenda Montes Claros onde estudou e desenvolveu metodologias de pesquisas que até hoje são referência para a espécie.  

Karen aprendeu a identificar cada indivíduos, reconhecer seus hábitos e comportamentos e muito do que se conhece sobre a espécie hoje, devemos a essa ela.

 

Como esta cientista trabalha para reabilitar o maior e mais raro macaco das Américas

Muriquis-do-norte. Foto: João Marcos Rosa

 

Hoje, Karen não reside mais no Brasil, mas isso não a impede de orientar, mesmo que a distância, inúmeros estudantes que sonham em absorver um pouquinho do conhecimento que ela adquiriu.

Todos os anos, Karen vem ao Brasil orientar os bolsistas do projeto Muriquis de Caratinga, no Vale do Rio Doce, interior de Minas Gerais e coordenar o projeto que criou com tanto carinho. 

 

A importância do trabalho de Karen

Karen desenvolve um dos mais antigos e importantes estudo sobre primata em área neotropical. Além de todo o tempo que se doou para o estudo em campo, mergulhada diariamente na mata por meses, Karen também se dedica a treinar pessoas em um país tropical no estudo de uma espécie tão relevante para a conservação.

“Eu gosto de pensar que eu consigo fazer isso de uma forma ou de outra, pelo treinamento, pela produção científica, por minhas palavras. Porque é fascinante o que a gente está fazendo com os muriquis. Eu  mostro que é possível: se tiver interesse , se tiver paixão, você consegue seguir seus  sonhos.” : Karen Strier

 

Mulheres na conservação: Karen Strier | CicloVivo

Karen Strier e outras pesquisadoras em campo. Foto: CicloVivo

 

14 meses na mata

Karen conta que apesar de todas as dificuldades e a solidão de estar na mata constantemente, ficar entre os muriquis era mais fácil para ela do que entre as pessoas com as quais não conseguia se comunicar, devido as limitações linguísticas.

Com o tempo foi aprendendo a se aproximar dos muriquis, se comportar na presença deles e a reconhecer suas diferenças.

 

Anthropology professor Karen Strier recognized as prominent primate conservationist in Brazil

Karen Strier. Foto: news.wisc.edu

 

Um longo projeto que só cresce e ganha novos membros

Depois dos 14 meses de imersão em sua pesquisa, Karen conseguiu um financiamento para fazer uma visita ao Brasil, quando conheceu um estudante da USP interessado em trabalhar com os muriquis. Karen o treinou para fazer o reconhecimento dos indivíduos e quando ele saiu, treinaram uma nova equipe, que treinou uma nova equipe e assim segue até os dias de hoje.

“Já treinamos 75 pessoas, 52% são mulheres.

Quanto mais pessoas envolver, melhor. Os dados que nós estamos acumulando são superinteressantes, fundamentais. Mas ficam mais interessantes ainda se pudermos comparar.” Karen Strier.

 

O reconhecimento de tanto trabalho

Com tanto tempo de dedicação não é de se espantar que Karen já tenha ganhado muitos prêmios, publicado muitos livros e artigos científicos e contribuído imensamente para a ciência e conservação dessa espécie que amamos tanto. 

 

2013 – Membro-honorário, conferido pela Sociedad Latinoamericana de Primatologia (SLAPrim)

2013 – Cidadão Honorário de Caratinga, conferido pela Câmara Municipal de Caratinga – MG

2013 – Pesquisadora Visitante Especial, programa da CAPES – Brasil (bolsa de três anos)

2011 – Membro-honorário, conferido pela Sociedade Brasileira de Primatologia

2010 – Prêmio Notável Primatólogo de 2010, conferido pela Sociedade Americana de Primatólogos (EUA)

2009 – Eleita membro da Academia Americana de Artes e Ciências (EUA)

2006 – Doutorado em Ciência Honorário, conferido pela Universidade de Chicago (EUA)

2005 – Membro da Academia Nacional de Ciências (EUA)

1989 – Prêmio Presidential Young Investigator, conferido pela Fundação Nacional de Ciências (EUA)

Karen publicou um livro que para mim, é mais que uma inspiração, é uma história de amor. O nome é Faces da floresta e indico a leitura a todos os amantes da natureza. Uma verdadeira aula de ciência e respeito!


Karen, muito obrigada! É o que podemos dizer por tanto conhecimento compartilhado!

Informações retiradas da matéria publicada no site ciclovivo.com

Texto por Fernanda Sá

Bond da conservação: Peter Crawshaw

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Você conhece as grandes personalidades da conservação? Ao longo dos anos, pudemos contar com alguns heróis que deram início a grandes ideias ou tiveram papéis importantes em determinados projetos de proteção ao meio ambiente. Seus princípios e histórias de vida são uma inspiração para nós, que formamos uma enorme corrente a favor da natureza.  

Vamos explorar a história desses gigantes aqui em nosso blog. A informação é nossa principal arma. Por meio dela, desejamos munir a população de conhecimento, inspirar cidadãos comuns e trazer o maior número de pessoas  para o “lado verde da força”.

 

Hoje vamos conversar sobre uma das maiores inspirações para quem trabalha com mamíferos e conservação no Brasil. Vamos falar sobre Peter Crawshaw.

Peter formou-se em Ciências Biológicas no ano de 1977 pela Unisinos (RS), onde fez estágio em um zoológico – neste estágio já tinha grande admiração pelos felinos do local. Fez mestrado e doutorado pela Universidade da Flórida. Trabalhou no IBDF, no IBAMA e aposentou em 2012, como analista ambiental do Cenap, centro especializado do ICMBio. Atualmente continua participando de projetos de conservação de felinos e mora em Passo de Torres, SC.

 

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Peter Crawshaw no programa do Jô.

 

O história por trás da história

Nascido no Sudeste de São Paulo, no município de São Vicente, Petter teve seu primeiro contato com a fauna devido às atividades de caça exercidas pelo pai e seu grupo de amigos. As caças eram diversas, variando desde catetos, queixadas e até muriquis.
Petter conta que em uma das caçadas do grupo, uma fêmea de muriqui foi morta, deixando um filhote órfão. O pai de Peter acabou levando o filhote para casa, que permaneceu com a família até uma morte prematura, possivelmente por causas alimentares.

Com 10 anos de idade, o menino passou também a caçar, mas o que mais o encantava, eram as atividades que rodeavam a prática, como acampar.

 

Trajetória

Com o tempo, toda a família foi deixando esse hábito para trás.

Em 1966 eles se mudaram para o Rio Grande do Sul, onde tiveram, por dois anos, uma vida bem rural. Após esse período mudaram-se para Porto Alegre, onde Petter cursou a faculdade.

Um pouco antes de se formar, recebeu uma carta de uma amiga que falava que George Schaller, estava indo ao Brasil e que estava procurando uma área para estudar onças-pintadas no Pantanal. George é um importante zoólogo, pioneiro no estudo em campo de várias espécies carismáticas como tigre-asiático, leão, leopardo-das-neves, gorila-das-montanhas, dentre outros. 

Peter enviou uma carta a George falando do seu interesse em trabalhar com ele. Se conheceram em Brasília, onde George fez um convite para que Petter o visitasse no Pantanal. Petter não perdeu a oportunidade e fez uma proveitosa visita de 10 dias que incluiu muito campo e estreitamento de laços. Em janeiro de 1977 foi contratado para iniciar o trabalho com Geroge. Desde 1978, mediante um convênio entre o IBDF e a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), o projeto no Pantanal contou com a participação de Peter Crawshaw.

Quando George e Peter chegaram ao Pantanal, acompanharam indiretamente a população de onças moradoras da fazenda de estudo através de rastros.

O objetivo era colocar colares de monitoramento, aparelho recente, testado até então, somente com urso-pardo e puma-americano nos Estados Unidos. Mas ainda, nunca tinham conseguido pegar as onças com armadilha, para colocar o colar.

Com isso, o projeto contratou outro pesquisador, que tinha experiência com armadilhas e eles conseguiram capturar uma fêmea de onça-pintada em uma fazenda vizinha.

Ao total, duas fêmeas de onças-pintadas e também um macho de onça-parda foram marcados entre abril de 1977 e maio de 1978.

Até que, em julho de 1978, o trabalho no local foi interrompido, quando empregados da fazenda, por ordem do administrador do local, devido a conflitos econômicos/culturais e predação de gado, matou duas onças do local de estudo que ainda não haviam sido marcadas.

Em 1980, conseguiram uma nova área de estudo de onças no Pantanal, retomando as pesquisas. Neste ano, George foi para a China estudar o panda-gigante e o biólogo americano Howard Quigley veio, ficando com Peter até 1984, quando finalizaram o estudo. Entre 1980 e 1984, sete onças foram monitoradas.

Desde 1978, através de um convênio entre o IBDF e a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), o projeto no Pantanal contou com a participação de Peter. 

Da esquerda para a direita: George Schaller, Peter Crawshaw e Ana Rafaela D’Amico, em expedição no rio Roosevelt, em 2015. Foto: Arquivo Pessoal George Schaller – Oeco

Uma lenda vida

Há mais de 30 anos Peter Crawshaw é uma referência, na verdade uma lenda, em trabalhos com onças no Brasil, 

Foi ele o responsável pela primeira foto já feita no mundo todo de uma onça-pintada em armadilha fotográfica.

 

Nenhuma descrição de foto disponível.

primeira foto já feita no mundo todo de uma onça-pintada em armadilha fotográfica.

 

Esta foto histórica marca a trajetória de uma vida dedicada à conservação de felinos.

Petter também foi o responsável por capturar a primeira onça no Parque Nacional do Iguaçu, fez os primeiros estudos na região e  criou o projeto Carnívoros do Iguaçu. Hoje ele ajuda na elaboração de um planejamento estratégico para cinco anos do Projeto Onças do Iguaçu.

 

Petter é uma referência na consolidação da pesquisa e conservação de carnívoros no Brasil! Só temos a agradecer, por todas as suas contribuições.