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Me deparei com uma onça, e agora?

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Imagine só: você está andando pelo mato, a trabalho ou apenas por lazer, quando de repente você avista duas onças-pintadas deitadas a 20 metros de onde você está. O que fazer? Correr? Sair de fininho? Assustá-las? Bom, isso é o que nosso biólogo Gustavo Figueiroa vivenciou em um dos seus trabalhos no Pantanal e hoje, ele nos contará qual a atitude correta frente a situações como essas. 

 

Onça-pintada e onça-parda

Antes de tudo é importante dizer que, no Brasil, temos duas espécies de onças. A onça-pintada (Panthera onca) e a onça-parda (Puma concolor). A onça-pintada é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, podendo chegar a mais de 100 kg!  São animais carnívoros e predadores topo de cadeia, se alimentando desde animais pequenos a grandes antas e jacarés. Ocorrem em quase todos os biomas do Brasil, porém possuem populações maiores e mais estáveis no Pantanal e na Amazônia, uma vez que são áreas maiores, mais preservadas e com menor ocupação humana. 

 

Áreas de ocorrência da Onça Pintada. Imagem: IUCN

 

Devido a caça e a perda de habitat gerada pelo desmatamento, as onças-pintadas são consideradas “Vulneráveis” de acordo com o ICMBio-MMA e “Quase Ameaçada” pela IUCN. 

 

As onças-pintadas possuem pelagem amarelo-dourada e pintas pretas na cabeça, pescoço e patas. No resto do corpo possuem rosetas com pintas dentro, assim como mostrado no destaque. Foto: Gustavo Figueiroa

 

Já as onças-pardas, ou suçuaranas, são menores que as onças-pintadas, pesando entre 50 a 72 kg e possuem uma distribuição bem mais ampla, tendo populações bem estabelecidas por todo o país. Assim como as onças-pintadas, são estritamente carnívoras, mas apresentam uma dieta mais generalista, podendo comer até lagartos, aves e insetos. 

Áreas de ocorrência da onça-parda. Imagem: IUCN

 

Além de sofrerem com a caça, perda e fragmentação do habitat, também sofrem com atropelamentos. Devido a isso, seu status de conservação é “Vulnerável” pelo ICMBio-MMA, mas “Pouco preocupante” de acordo com a IUCN. 

As onças-pardas possuem cores que vão do cinza claro até um marrom avermelhado. Seus filhotes são bege/pardo com listras.

 

Foto: Milan Zygmunt / Shutterstock.com

 

Mas afinal, se elas são carnívoras, então estamos no cardápio delas? 

Para a glória e alívio de todos, não! Os seres humanos não fazem parte do cardápio da onça-pintada e nem da onça-parda.

 

Arte: Anna Luisa Michetti Alves/Greenbond. 

Então por que elas nos atacam? 

Bom, na verdade existem poucos registros de ataques de onças-pintadas a humanos no Brasil e de onça-parda não há nenhum. Basicamente, todos os ataques acontecem devido a conduta errada do ser humano, como por exemplo: aproximar de uma fêmea com filhote, aproximar-se enquanto uma onça se alimenta, durante o acasalamento ou encurralá-las. Nesses casos, elas podem atacar em uma tentativa de defender sua prole, sua comida ou elas mesmas.

 

O que fazer caso encontre uma onça  

Nosso biólogo Gustavo nos explicou tudinho sobre como nos portar e o que fazer em uma situação cara a cara com o perigo.

Primeiro de tudo: mantenha a calma. Isso evita que façamos alguma besteira. Segundo, fique parado e pareça maior. Podem ser levantados os braços, por exemplo. Vá se afastando devagar da onça, sempre de frente para ela. Observá-la enquanto se afasta é importante. Por fim, tome uma distância segura e siga seu caminho. Caso a onça se aproxime, levante os braços e grite. 

 

Arte: Anna Luisa Michetti Alves/Greenbond. 

 

O que NÃO fazer caso encontre uma onça

Não se aproxime mais. 

Não faça movimentos bruscos. 

Não se abaixe, não engatinhe, não se agache. 

Não vire de costas e não corra! 

Esses comportamentos são os de presa e não queremos que ela nos confunda com uma presa, não é mesmo? 

 

Arte: Anna Luisa Michetti Alves/Greenbond. 

 

E funciona mesmo? Nem tô botando fé…

Gu nos contou alguns relatos em que esteve cara a cara com onças-pintadas e agiu segundo as recomendações. Em todos os casos teve sucesso. 

 

“Ela tava muito perto de mim mesmo, a 4 metros. Era um pulo. É uma zona que a gente fala que é “a zona mortal”

Gus tinha começado seu trabalho monitorando onças no Pantanal havia pouco tempo. Ele e a equipe ficaram sabendo que uma onça-pintada havia matado um boi na região e arrastado a carcaça para uma área de mata fechada. O plano era pegar a carcaça e levar para uma região aberta a fim de atrair a onça à noite, quando eles voltariam. Início da execução do plano, aparentemente tudo tranquilo. Nenhum barulho, nenhum sinal de onça. Gustavo entrou na mata para amarrar uma corda no pé do boi e puxar com a caminhonete, quando ao tocar no animal, ouviu o esturro da onça que estava atrás de uma moita a apenas 4 metros de onde ele estava. “Ela tava muito perto de mim mesmo, a 4 metros. Era um pulo. É uma zona que a gente fala que é ‘a zona mortal’, não tem o que fazer (…) tem que confiar nas técnicas que eu falei”, relata Gustavo. 

Ao receber o aviso mais do que claro de soltar a caça, Gu largou o boi, se levantou calmamente e foi se afastando olhando em direção a moita e a carcaça, pois ele ainda não havia avistado a onça. Conseguiu se afastar até uma distância segura e voltou para o carro, vivo.  Tremendo mais que vara verde, mas vivo. 

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

Outra situação foi durante a temporada de captura de onças, que é quando os pesquisadores capturam onças para avaliá-las e colocar colares GPS para monitorá-las. Para as capturas são utilizadas armadilhas de laço, que ficam escondidas no chão. 

Na temporada em questão, ainda não haviam capturado nenhuma onça e, em uma das idas a campo, avistaram uma onça que tinha acabado de matar um jacaré. A onça se assustou com o carro e fugiu, deixando a caça para trás. A equipe então planejou usar o jacaré como isca e armar a armadilha ali perto, de modo que quando a onça retornasse para comer, fosse capturada para a pesquisa. 

E começa o processo… Enquanto o veterinário da equipe estava montando a armadilha, Gu foi pegar o jacaré para poder colocar como isca. Eis que a onça resolveu voltar e deu de cara com Gustavo carregando a presa que tinha acabado de caçar. Imagina a cena: o veterinário agachado montando a armadilha a menos de 10 metros da onça. Gustavo com o jacaré nos braços também a menos de 10 metros. A onça indo em direção dos dois, agachada, em posição de ataque. Tudo certo para dar errado. 

Mas é claro que nosso biólogo ia sair dessa. Imediatamente soltou o jacaré. O veterinário ao ver a cena, entendeu o que estava acontecendo e se levantou. A onça, que estava indo na direção deles, parou e os dois começaram a se afastando devagar, sempre de frente para ela, até chegar ao carro, que não estava muito distante.

 

Foto: Ailton Lara

 

Então o Gustavo que é um sortudo de ter saído ileso?

Não, ele apenas seguiu todas as recomendações para evitar um ataque e conseguir sair das situações em que entrou. É super importante ter em mente que a nossa resposta frente a ameaça é o que irá definir o resultado final. Se tivermos a resposta adequada, possivelmente sairemos ilesos. 

 

Foto: Paula Dias Ho

 

Outra informação importante: ao avistar uma onça, em uma uma distância segura, não esqueça de tirar uma foto bem bonita, porque é um privilégio, viu! 

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

Bond da Conservação: Alan Rabinowitz

By | Personagens da conservação | No Comments

Geralmente começamos o texto deste quadro de “Personagens da Conservação” com nossa introdução base e desenvolvemos o restante com a trajetória do profissional e seus feitos, mas se vocês leitores me permitirem, hoje gostaria de iniciar de uma forma diferente. 

Eu confesso que quando me pediram para escrever sobre o Alan eu não o conhecia. Não sabia o que tinha feito, apenas que trabalhava com felinos. Pois bem, nas minhas buscas de material para o Blog, me deparo com uma coluna do ((o))eco em que o biólogo Fernando Fernandez escreve sobre um podcast que ouviu do “The Moth” em que Alan Rabinowitz conta sua história. Logo pensei “nada melhor para conhecer a história de alguém do que ouvi-la da própria fonte”. 

E lá vou eu ouvir os 18 minutos de uma história intitulada “Man and Beast” (Homem e Fera). Eu não sou de emocionar, mas fiquei com lágrimas nos olhos do início ao fim. 

Desta forma, é assim que iniciaremos este quadro, irei contá-los esta história, e  para quem entende inglês não deixe de ouvi-la pois é fantástica. Link do podcast: clique aqui. 

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

Podcast Man and Beast

A infância

Nossa história começa em 1958 com um menino de 5 anos visitando o Zoológico do Bronx, NY. O pequeno Alan vê uma velha onça fêmea em sua jaula e se pergunta o que ela fez para estar naquele local. Então se inclina um pouco e começa a sussurrar algo para a onça, mas seu pai logo se aproxima e pergunta o que ele está fazendo.

Alan iria explicar, mas sua boca trava, bem como ele já imaginava  que iria acontecer pois, “tudo na minha infância naquela época era caracterizado pela minha incapacidade de falar”. Desde criancinha Alan sofria de uma gagueira severa, mas não uma gagueira de repetição de sílabas, e sim um completo bloqueio de fluxo de ar que ao tentar falar provocava grandes espasmos.

Nesta época ninguém sabia o que fazer. Havia poucos estudos sobre a gagueira e não havia internet ou computadores para facilitar as pesquisas como temos hoje. Na escola as coisas eram ainda mais complicadas. A solução do sistema de ensino foi colocar Alan na sala de alunos com distúrbios, e apesar dos protestos de seus pais, a escola alegava que essa era única saída, uma vez que toda vez que tentava falar incomodava a todos.

 

 

A grande descoberta

“Eu passei toda minha infância me perguntando porque os adultos não podiam ver dentro de mim, porque eles não podiam ver que eu era normal e que todas as palavras estavam dentro de mim e que elas apenas não saiam.”…“Felizmente desde novo aprendi o que muitos gagos aprendem em algum momento: você pode fazer pelo menos duas coisas sem gaguejar. Uma delas é cantar. A outra é que você pode falar com os animais.” Afirmou Alan.

Todos os dias ao voltar da aula, que as outras crianças chamavam de “a aula dos retardados”, Alan ia direto para seu quarto e entrava em seu closet. Sentava-se no  cantinho mais escuro, fechava a porta e levava consigo seus animais de estimação: hamster, gerbil, tartaruga, um camaleão e uma cobra de jardim.

Então conversava com seus pets, falava fluentemente com eles. Falava suas esperanças, seus sonhos, como as pessoas eram estúpidas por acharem que ele era estúpido. “E os animais ouviam, eles sentiam. E eu percebi que eles sentiam pois eles eram iguais a mim. Os animais têm sentimentos e também tentam transmitir coisas para nós, mas não tem uma voz humana então as pessoas os ignoram, os entendem errado, os machucam e às vezes os matam.” Alan conta. “Eu prometi aos animais quando era jovem que se eu algum dia encontrasse a minha voz, eu tentaria ser a voz deles.” 

Alan vivia em dois mundos: no mundo em que ele se considerava ‘normal’, onde ele conseguia falar com os animais sem dificuldades e no mundo dos seres humanos, onde não conseguia. Seus pais tentaram de tudo, várias terapias, remédios, psicólogos, mas nada funcionava.

 

A juventude

Passou por todas as fases da escola até a faculdade e no caminho foi lidando com a gagueira por meio de isolamento, não conversando, evitando situações e pessoas. Era um excelente aluno e bom nos esportes, inclusive fazendo parte dos times de luta e de boxe, mas não fazia por gosto e sim para aliviar a raiva e frustração que vivia.

“Na época que era veterano na faculdade, eu nunca tinha tido um encontro com uma garota, nunca tinha beijado uma garota, exceto minha mãe, e nunca tinha falado uma frase completamente fluente em voz alta para outro ser humano.” Conta Alan.

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

O tratamento

No meio do último ano de faculdade, os pais de Alan ficaram sabendo de um programa experimental bastante intenso em Geneseo, uma cidade de Nova York,  onde o jovem ficaria dois meses direto para tratar a severa gagueira e, apesar de muito caro, os pais não mediram esforços para que ele fosse. Venderam algumas coisas e mandaram Alan para Geneseo. 

“Aquela clínica mudou a minha vida. Ela me ensinou duas coisas importantes: a primeira é que eu sou gago e sempre serei gago. Não existe uma pílula mágica e eu não vou acordar pela manhã, como sempre sonhei, sendo fluente na fala. A segunda coisa, a mais importante, se eu fizesse o que eles estavam me ensinando, se usasse as ferramentas, se aprendesse a mecânica para controlar mecanicamente a minha boca e o fluxo de ar, se eu trabalhasse duro, poderia ser um gago fluente. E eu trabalhei duro e foi inacreditável! Em 20 anos eu finalmente pude falar!” Relata Alan.

Finalmente nosso Alan estava experimentando uma nova fase. Claro que foi trabalhoso, enquanto falava precisava pensar e controlar o fluxo de ar e outras coisas, mas nada disso importava para ele pois agora a vida seria diferente, ele voltaria para a escola e iriam aceitá-lo. 

 

As mudanças

As coisas de fato foram diferentes, mas no exterior, pois em seu interior ainda se sentia aquela mesma pessoa gaga, frustrada, que cursava medicina não porque gostava, mas para quando se formasse e fosse médico, as pessoas gostassem dele, falassem com ele e o valorizassem. Ele não gostava de trabalhar com pessoas, não gostava de ver os animais de laboratório na situação em que se encontram e o próprio trabalho era frustrante.

Então, no seu último semestre abandonou a faculdade e entrou para a Universidade do Tennessee no curso de biologia e zoologia de animais silvestres. “Então no meu primeiro ano eu estava nas Great Smoky Mountains estudando ursos negros e quando eu estava na floresta com os animais, eu estava em casa. Isso é o que eu nasci para fazer. Estar na floresta sozinho com os animais era meu closet do mundo real. Isso era o que me fazia sentir bem. (…) Era como eu deveria viver minha vida.” Conta Alan.

Logo após seu título de PhD, conheceu George Schaller, um grande zoólogo pioneiro em estudos de animais em campo utilizando radiotransmissores e precursor no estudo de onças pintadas. “Nós passamos um dia juntos seguindo ursos nas Smoky Mountains e no final do dia, George disse para mim: ‘Alan, você gostaria de ir para Belize e ser um dos primeiros a estudar onças pintadas na selva?’ O primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi ‘onde diabos é Belize?’ Mas a primeira palavra que saiu da minha boca 30 segundos depois foi ‘é claro que eu vou’.¨ Lembra Alan (Belize é um país da América Central perto da Guatemala, apenas situando os Alans de plantão!) 

 

O início do trabalho com as onças

Dois meses depois, Alan fez suas malas e dirigiu de Nova York até a América Central. Em Belize. Lá ele aprendeu muito. Aprendeu com os caçadores como capturar onças, aprendeu a segui-las e a estudá-las. Estava vivendo a vida dos sonhos. Apesar das dificuldades com doenças, picadas de animais peçonhentos, estar na natureza e fazer o que amava era como estar no céu. Alan estava feliz, confortável e sentiu que aquilo era o que poderia fazer para o resto da vida.

Mas ele não podia. Não podia porque percebeu que enquanto ele estava capturando e estudando as onças, elas estavam sendo mortas na frente dele, tanto as da área de estudo quanto as de fora dela. “Eu podia ficar sentado na selva, mas aí não estaria sendo fiel comigo mesmo e o mais importante, eu não estaria sendo fiel com a promessa que fiz aos meus animais no meu closet que eu seria a voz deles. E eu tinha a voz agora.” Disse Alan.

 

Alan Rabinowitz. Foto: https://myhero.com/

 

Travando a luta pela conservação das onças 

Foi então que Alan percebeu que teria que voltar à realidade. Teria que voltar para o mundo das pessoas e tentar lutar de alguma forma para salvar as onças. Ironicamente ele percebeu que para salvar estes animais ele não teria apenas que voltar para o mundo das pessoas, mas teria que tentar alcançar o governantes, teria que falar com o primeiro-ministro. 

Seis meses depois estava na porta do primeiro-ministro. Tinha ganhado 15 minutos para expor suas ideias e não tinha  a menor ideia do que falar. “Eu tinha 15 minutos, não podia gaguejar. Não podia distraí-los do ponto central que era salvar as onças. Eu tinha que usar tudo que tinha aprendido e ser um falante completamente fluente e convencer um dos países mais pobres da América Central, que não possuía nenhuma área protegida naquela época, no qual o turismo não era valorizado, de que eles tinham que salvar onças.” Conta Alan.

Uma hora e meia depois foi em votação a criação da primeira reserva de proteção de onças do mundo. “…e eu prometi para eles que iria funcionar. Eu prometi que mostraria para eles que geraria benefícios econômicos.” Lembra Alan.

 

De volta à selva 

Um mês depois, Alan estava de volta à selva, seguindo suas onças pelo rastro. Ele conhecia todas as onças da sua área de estudo pelas pegadas. Mas neste dia ele encontrou uma pegada nova, a maior pegada de uma onça macho que ele havia visto em toda a vida.  “Eu sabia que deveria segui-la.” Ele precisava ver, saber o que o macho  fazia, se ele vinha de fora, se só estava de passagem.

 

E então ele seguiu os rastros. Seguiu por horas até perceber que estava ficando escuro e não queria ser pego na floresta à noite, principalmente sem lanterna. “Então eu me virei para voltar para o acampamento. Assim que me virei, lá estava ele, a menos de 5 metros atrás de mim. Aquela onça, que eu estava seguindo, tinha dado a volta ao meu redor e estava me seguindo enquanto eu seguia ele. Ele poderia ter me matado a qualquer momento, poderia ter me pegado e eu nem estava ouvindo ele. Eu sei que deveria estar apavorado, mas eu não estava… Instintivamente me abaixei e a onça se sentou. E eu olhei em direção aos olhos dele e me lembrei do pequeno garoto olhando para a triste e velha onça do Zoológico do Bronx. Mas este animal não estava triste. Nos olhos deste animal havia força, poder, certeza de um propósito. E eu percebi que o que eu estava vendo nos olhos dele era o reflexo do que eu estava sentindo também. Aquele pequeno garoto triste e aquela onça infeliz eram agora tudo isso.” Conta Alan

“Repentinamente eu fiquei com medo, eu sabia que tinha que ficar com medo, então eu me levantei e dei um passo para trás. A onça se levantou também. Ele se virou e começou a andar em direção a floresta. Depois de 3 mstros, ele parou e se virou para olhar para mim. Eu olhei para aquela onça e me inclinei em direção a ela, assim como havia feito no zoológico do Bronx tantos anos atrás, e sussurrei para ele ‘Está tudo bem agora. Tudo vai ficar bem.’ E a onça se virou e foi embora.” Alan lembra.

Bom, esta é a história. Espero que vocês tenham gostado assim como eu. Mas não para por ai…

 

A luta pela conservação

Após ter estudado as onças pintadas e de ter sido o grande responsável pela criação da primeira reserva de proteção às onças, a Cockscomb Sanctuary and Jaguar Preserve em Belize, Alan Rabinowitz viajou o mundo estudando e lutando pela conservação de leopardos asiáticos, do leopardo nebuloso, tigres, rinocerontes da Sumatra, ursos, gatos leopardo, guaxinins e civetas. 

Trabalhou na Tailândia conduzindo a primeira pesquisa utilizando rádio telemetria em leopardos asiáticos, gatos leopardos e civetas no santuário de vida selvagem Huai Kha Khaeng no mundo. Este trabalho contribuiu para que este santuário se tornasse Patrimônio Mundial da UNESCO. 

Em 1997, agora em Mianmar, descobriu quatro novas espécies de mamíferos, incluindo o cervo-folha, que é considerado a espécie de cervo mais primitiva do mundo. Seu trabalho em Mianmar levou à criação de cinco áreas protegidas. Os resultados das conquistas da conservação incluem o primeiro parque nacional marinho de Mianmar, o primeiro e maior parque nacional himalaio, o maior santuário de vida silvestre  do país e a maior reserva de proteção de tigres do mundo!

 

 

O corredor de onças pintadas

Em seus estudos e pesquisas, Rabinowitz descobriu que não havia subespécies de onças pintadas, geneticamente diferentes, desde os Estados Unidos até a Argentina, era apenas uma espécie. 

Então idealizou e implementou o Jaguar Corridor Initiative, um programa de conservação de áreas de uso das onças, todas conectadas a fim de garantir a integridade genética da espécie. Este corredor vai do norte do México até a Argentina e passa por 18 países.

 

Panthera

Em 2006, co-fundou a Panthera, a única organização do mundo que trabalha exclusivamente em prol da conservação das 40 espécies de felinos selvagens e seus ecossistemas. 

Contando com vários especialistas, a organização possui diversos projetos de conservação. Atua por meio de parcerias com ONGs, governantes ao redor do mundo, populações locais, instituição de pesquisas e todos aqueles que querem ajudar na conservação e futuro dos felinos selvagens.

Também criou um programa de estratégias para reduzir as ameaças enfrentadas pelos tigres, o Tigers Forever. Contou com a ajuda de ONGs, membros da comunidade e governantes para este programa de conservação que consistia em monitorar e não deixar os tigres serem vítimas de caçadores, além de reforçar a aplicação das leis.  

 

Os feitos de Alan Rabinowitz são muitos e suas contribuições são incontáveis. Infelizmente, devido a um câncer, Alan nos deixou em 2018, mas seu legado e objetivos em prol da conservação estarão sempre presentes. Continuaremos a luta por ele, pelos animais e pelo nosso mundo.  

MUITO OBRIGADA ALAN! 

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves
Revisado por Fernanda Sá

Jaguar Parade Brasil: um case de sucesso na captação de recursos

By | Eventos de Conservação, GreenBond, Onça-pintada | No Comments

Na última sexta-feira, 29 de novembro, nós estivémos presentes no leilão beneficente da Jaguar Parade Brasil. O evento, realizado estrategicamente no Dia Internacional da Onça-pintada, finalizou com categoria o fenômeno artístico que foi um grande sucesso. 

Foto: Jaguar Parade Brasil

 

Desde agosto de 2019, a Jaguar Parade já estava movimentando a cidade de São Paulo à favor da rainha das florestas. Dividida em diferentes etapas, que iam desde a pintura das onças em público até o leilão beneficente, a maior exposição de arte urbana a céu aberto “fez barulho” e ajudou fortemente na divulgação da mensagem central: a conservação da onça-pintada. 

E como se a propagação da mensagem já não fosse suficiente, a Jaguar Parade também mostrou-se uma ferramenta poderosíssima para a captação de recursos, já que metade do valor arrecadado com o leilão das onças foi convertido para projetos atuantes na conservação da espécie. Incrível! 

 

O QUE É A JAGUAR PARADE? 

Seguindo a mesma dinâmica de eventos consagrados mundialmente, a Jaguar Parade (realizada pela Artery Brasil) atuou como um poderoso veículo de conscientização e captação. O intuito do movimento foi espalhar a mensagem de conservação da onça-pintada e seu ecossistema, por meio da arte pública, que invadiu as principais ruas e avenidas de São Paulo no segundo semestre de 2019. 

A primeira etapa aberta ao público aconteceu no shopping Market Place, entre os meses de agosto e setembro. Durante o período, qualquer pessoa podia acompanhar as pinturas das estátuas ao vivo no ateliê do shopping, além de tirar fotos, conversar com os artistas e entender um pouco mais sobre o processo criativo de cada um.

Foto: Jaguar Parade Brasil

 

A segunda fase foi marcada pela exposição das esculturas nos principais pontos da cidade de São Paulo. Começando por shoppings e parques, depois tomando as ruas e avenidas da metrópole, as onças coloriram a selva de pedra e atraíram os mais diferentes olhares entre os meses de setembro e novembro.

Foto: Jaguar Parade Brasil

 

Até então, o movimento estava focado apenas em seu objetivo primário: atrair a atenção das pessoas para a necessidade de conservação das onças-pintadas. Com uma intervenção pública de impacto gigantesco, as esculturas foram capazes de divulgar, lindamente, a mensagem proposta. 

Chegando na terceira e última fase, que foi o leilão beneficente, o evento já abre espaço para seu segundo grande objetivo: a captação de recursos. Caminhando ao lado de parceiros como o Onçafari, SOS Pantanal, Ampara Animal e Panthera Brasil, a Jaguar Parade doou 50% do capital arrecadado durante o leilão para essas instituições continuarem atuando brilhantemente na conservação da espécie. 

Foto: Jaguar Parade Brasil

 

A SINGULARIDADE DA ARTE EM PROL DA CONSERVAÇÃO 

Uma coisa não podemos negar: a ideia de juntar arte urbana com conservação ambiental é genial! Aproximar os “urbanóides” da natureza por meio de arte foi uma ideia brilhante, que não poderia ter tido um resultado diferente, senão: sucesso total. 

Foto: Jaguar Parade Brasil

 

A curiosidade, os questionamentos e grande interação dos paulistanos com as onças foi notável desde o primeiro dia de exposição. A mídia noticiou, as fotos amadoras e selfies tomaram as redes sociais, era onça pra todo lado – literalmente. 

E por fim, o leilão das esculturas coroou uma ideia genial com algo sólido e mensurável: recursos . O papel da educação ambiental é importantíssimo, claro, mas captar recursos e investi-los em ecoturismo, pesquisa científica e/ou outras ferramentas de conservação tornam os esforços para proteger o animal muito mais efetivos. Ou seja, no geral, foi um movimento de conservação completo e muito bem pensado.

Foto: Jaguar Parade Brasil

 

PARTICIPAÇÃO DA GREENBOND NO FENÔMENO DAS ONÇAS-PINTADAS 

Além de trabalhar a comunicação da parceria nas redes sociais dos nossos clientes Onçafari e SOS Pantanal, que foram duas das instituições beneficiadas, nós também tivemos participação ativa no início do projeto. 

Foto: Jaguar Parade Brasil

 

Ficamos com a responsabilidade de promover o contato entre as instituições e a Artery, além de fazer frente com parceiros como a ISA CTEEP. E, por ser uma agência de comunicação focada em iniciativas de conservação, também entramos na Jaguar Parade como certificadora dos projetos, ou seja, utilizamos nosso conhecimento técnico para selecionar as organizações que receberiam os recursos. 

Durante o período de parceria, participamos de diversos processos. Sugerimos e ajudamos na construção do evento no dia 29, conciliando com o Dia Internacional da Onça-pintada. Também articulamos a exibição das onças nos parques, além de integrar o elenco da reunião inicial com os shoppings Iguatemi. 

Foi uma grande honra fazer parte de um evento tão impactante e com tamanha importância para a conservação ambiental!

Foto: Jaguar Parade Brasil

Onçafari lança campanha de financiamento coletivo pela conservação da onça-pintada

By | Conservação, Notícias, Onça-pintada | No Comments

O Onçafari começou a campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) Calendário Onçafari 2019 – deixe seus dias mais selvagens para continuar a luta pela preservação das onças-pintadas e dos lobos-guarás, promover a conservação do meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento socioeconômico das regiões de atuação do projeto.

Para participar é simples: escolha o valor da sua contribuição e sua recompensa no site https://ajude.oncafari.org/, faça um rápido cadastro, selecione a forma de pagamento e pronto. Você irá adquirir um calendário exclusivo que inclui as datas comemorativas mais importantes para o meio ambiente, fotos incríveis das nossas onças-pintadas e lobos-guarás e, de quebra, ainda contribui para que o Onçafari continue seu trabalho de conservação.

O projeto foi fundado em 2011 por Mario Haberfeld, ex-piloto de Fórmula Indy que resolveu se dedicar integralmente a conservação da vida selvagem. O objetivo é aumentar o interesse dos fazendeiros no turismo de observação de animais, atrair turistas interessados em ver o animal, gerar novas oportunidades de emprego para as pessoas da região, ajudar na conservação do felino e, consequentemente, de seu habitat.

Todos os recursos serão destinados para custear os salários dos biólogos, veterinário, guias e colaboradores do Onçafari e permitirá que a organização continue atuando em 6 frentes diferentes:

  • Ecoturismo: habituação de animais, como a onça-pintada e o lobo-guará, à presença de veículos de safári para que eles sejam vistos com mais frequência e por mais tempo por turistas. É importante dizer que o processo não envolve métodos de domesticação (como o oferecimento de comida) e os felinos selecionados permanecem selvagens.
  • Ciência: Monitoramento do comportamento de animais frente à atividade de ecoturismo com o objetivo de avaliar o estado de saúde de cada indivíduo e fazer pesquisas em ecologia e fisiologia das onças-pintadas e lobos-guarás, aumentando assim o conhecimento científico sobre as espécies e potencializando sua proteção.
  • Rewild: Estruturação de projetos de pesquisa com foco em reintrodução de onças-pintadas na natureza, em parceria com o CENAP-ICMBio. Uma importante ferramenta para a recuperação de populações ameaçadas de extinção.
  • Social: Atuação direta com as comunidades locais onde nossos projetos estão inseridos. Fornecemos uniformes e materiais didáticos para alunos e professores em escolas locais, realizamos palestras sobre profissões que promovem ascensão social e disponibilizamos atendimento na área da saúde (odontológico, médico e veterinário) em comunidades próximas.
  • Florestas: Preservação de áreas de interesse ecológico. Mantemos propriedades que abrigam áreas de mata nativa ou em regeneração com o objetivo de protegê-las. Além de auxiliarmos na criação de unidades de conservação e áreas de proteção.
  • Educação: O Onçafari Education tem por objetivo conscientizar a população sobre a importância da preservação da biodiversidade, através de palestras, atividades de campo, filmes e eventos.

Para saber mais sobre a campanha acesse https://ajude.oncafari.org/ e faça a sua doação.

 

Plano de conservação da onça-pintada é lançado durante a COP 14

By | Conservação, Notícias | No Comments

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. No entanto, 50% do território original da espécie foi perdido devido à caça ilegal, ao conflito com humanos e à perda e fragmentação do habitat – Foto: en:User:Cburnett – Own work/ CC BY-SA 3.0

As principais organizações internacionais de conservação e 14 países que fazem parte do território da onça-pintada se uniram para lançar o Jaguar 2030 Conservation Roadmap for the Americas (Plano de Conservação da Onça-pintada para as Américas 2030), um plano regional para salvar a espécie e os ecossistemas onde ela é encontrada. O documento foi apresentado durante a Conferência das Partes (COP 14) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) que começou no sábado (17) e vai até 29 de novembro.

As principais populações de onça-pintada estão conectadas através de uma série de corredores biológicos e genéticos em uma unidade ecológica única e de larga escala conhecida como Corredor da Onça-Pintada. O Jaguar 2030 tem o objetivo de fortalecer esse Corredor em todos os países, garantindo 30 áreas prioritárias de conservação do felino até 2030.

A intenção é promover o desenvolvimento sustentável, reduzir o conflito homem x onça-pintada, estimular o ecoturismo e o desenvolvimento das comunidades locais, aumentar a segurança e a conectividade das paisagens protegidas e atender globalmente metas de conservação da biodiversidade. “O Jaguar 2030 representa o tipo de parceria inovadora que é essencial para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, afirmou Midori Paxton, Chefe de Biodiversidade e Ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em matéria publicada no site da ONU. “Ao unir os governos dos países onde o felino se encontra, o setor privado, a sociedade civil e parceiros internacionais, o Plano ajudará a proteger os corredores-chave da onça-pintada de forma a fortalecer a subsistência sustentável das comunidades locais e abrir novas oportunidades de negócios para o ecoturismo e agricultura sustentável.”

A onça-preta e a onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca), a diferença é que a versão escura tem mais melanina – Foto: Lucas Leite

Esse plano de conservação permite conhecer as distribuições do felino e os desafios que a espécie enfrenta com maior velocidade e promove avanços nas ferramentas de conservação da onça-pintada. Além disso, o Jaguar 2030 integra os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (florestas manejadas de forma sustentável, interrupção da degradação da terra e perda de biodiversidade e produção responsável) com a conservação da onça-pintada e enfatiza a importância de incorporar o felino nos planos de desenvolvimento para a expansão de energia, agricultura e transporte com o objetivo de não haver perdas para a espécie nem para a biodiversidade.

Os olhos das onças-pintadas, assim como de outros felinos, refletem facilmente a luz graças à uma membrana chamada tapetum lucidum, que os ajuda a enxergar de noite. Foto: Gustavo Figueirôa

Dr. John Polisaro, coordenador do Programa de Conservação da Onça-Pintada na WCS (Wildlife Conservation Society), afirmou no blog de National Geographic: “Neste momento, o impulso por trás do Jaguar 2030 Conservation Roadmap for the Americas está crescendo em todo o território da onça-pintada. Está ganhando força por meio de compromissos nacionais unificados e visões transfronteiriças para alcançar a coexistência bem-sucedida dos seres humanos com o poder do mundo selvagem – a onça. Ambos serão beneficiados”, Estamos torcendo para que ele esteja certo.

Safári no Brasil: Uma alternativa para a conservação

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Safári, é o termo usado para nomear expedições por terra em lugares selvagens, tipicamente viagens de caça ou turismo pela África. 

Muita gente já ouviu falar sobre os famosos safáris na África, e ao mencionar este termo quase sempre vem à mente uma cena clássica: Turistas vestidos com roupas “à la” Indiana Jones, sentados na caçamba de um daqueles altos caminhões de safári, enquanto cortam a savana africana avistando e fotografando leões, rinocerontes, elefantes, búfalos e leopardos.

Antigamente eram muito mais comuns os safáris de caça, porém de algumas décadas pra cá, o cenário mudou e os safáris para turismo de observação de animais aumentaram muito!

Pessoas vestidas “à la” Indiana Jones em meio a um safári na África do Sul

Para alguns, apenas um sonho distante de ser atingido, seja por falta de dinheiro, por falta de conhecimento ou até mesmo por acreditar que é muito perigoso se aventurar em terras africanas. Para outros, uma experiência que está na lista de “coisas para fazer antes de morrer”.

Guepardo avistado por turistas durante Safári

 

Porém o que poucos sabem, é que safáris também podem ser feitos aqui no Brasil, mais perto do que se imagina… E não, não estou falando do Zoo Safári do Zoológico de São Paulo (antigo Simba Safári), mas sim de uma verdadeira expedição meio a um ambiente selvagem, para avistar animais selvagens em seu habitat natural.

 

Safáris no Pantanal:

 

No Pantanal, fazendas que mesclam a pecuária com o ecoturismo, encontraram uma oportunidade única para fazer da conservação de espécies ameaçadas e áreas protegidas, uma fonte de renda importante. Às vezes por conta própria, as vezes em parceria com projetos de conservação da biodiversidade.

Pantanal alagado no Refúgio Ecológico Caiman. Foto: Leonardo Sartorello

 

Refúgio Ecológico Caiman/Onçafari:

Um exemplo de parceria com projetos de conservação, é o que acontece entre o Refúgio Ecológico Caiman e o Onçafari.

Turistas avistando Onça-pintada no Refúgio Ecológico Caiman através do Onçafari.

 

O Onçafari é uma iniciativa privada, sem fins lucrativos, que através da habituação de onças-pintadas tornou muito mais fácil a visualização destes felinos que até pouco tempo atrás eram praticamente fantasmas nas florestas.

Onça-pintada avistada pelo Onçafari. Foto: Adam Bannister

 

A habituação nada mais é do que acostumar animais à presença dos veículos de safári, através de técnicas bem estruturadas, onde o animal começa a perceber o carro com os turistas como se fosse uma árvore e sabe que não lhe causará mal nenhum. Portanto, continuam agindo normalmente como se os turistas e pesquisadores não estivessem lá! Lembrando que habituação é diferente de domesticação! As onças continuam 100% selvagens e o avistamento só pode ser feito de dentro do carro, seguindo normas de segurança rígidas.

Fera, uma das Onças monitoradas pelo Onçafari sendo avistada. Foto: Carlos Eduardo Fragoso

O Refúgio Ecológico Caiman é uma fazenda na zona rural de Miranda, MS, e recebe hóspedes que vão em busca de conexão com a natureza e férias em um lugar genuinamente selvagem. Assim, a parceria com o Onçafari, causou um aumento significativo no aumento de avistamentos de onças, consequentemente um aumento expressivo no número de hóspedes.

Fazenda San Francisco

 

Um outro exemplo, é a Fazenda San Francisco, também localizada em Miranda, MS.

 

Ao mesmo tempo que possuem lavouras de arroz e criação de gado, a fazenda é conhecida mesmo pela pousada e por passeios turísticos que remetem aos visitantes um verdadeiro estilo de vida pantaneiro.

Safári fotográfico na Fazenda San Francisco

A fazenda aceita hóspedes do mundo todo, tanto para passarem a noite, quanto para apenas passarem o dia em suas dependências. Durante o dia, safáris fotográficos levam os visitantes para o meio das planícies alagadas da fazenda para o avistamento da mais rica fauna que o Pantanal pode oferecer: Jacarés, ariranhas, jaguatiricas, sucuris, tuiuiús, araras (uma infinidade de espécies de aves), além de é claro, a rainha das matas, a Onça-pintada.

Onça-pintada avistada na fazenda San Francisco.     Foto: Gustavo Figueirôa

Passeios de chalana em um braço do Rio Miranda, passeios à cavalo, trilhas… enfim, uma infinidade de opções para quem quer uma aventura real no Pantanal. Porém é de noite que as chances são maiores de ver os grandes felinos!

Passeio de chalana por um braço do Rio Miranda

Para os hóspedes que escolhem a pernoite, um safári noturno acontece, onde as chances de ver animais com hábitos noturnos aumenta, como corujas, urutaus, jaguatiricas e onças-pintadas.

Ecoturismo como chave para conservação

 

Esta atividade gera um valor real para as áreas onde estão inseridas, tanto social quanto financeiro. O ecoturismo gera empregos para as comunidades locais, atrai turistas para conhecer as belezas de nosso país e além de tudo, ajuda a preservar áreas de mata e espécies ameaçadas de extinção!

Imagem retirada da internet

 

Para finalizar, é importante ressaltar que o ecoturismo para dar certo como ferramenta de conservação, deve ser feito com muita responsabilidade, respeitando sempre os limites impostos pela natureza.

Já pensou em fazer um safári? Que tal começar pelo Brasil?

 

 

 

Por: Gustavo Figueirôa

Biólogo, Esp. em Manejo e Conservação da Fauna Silvestre

Cofundador na GreenBond

Caça e Fotografia: A mesma essência, objetivos opostos

By | Conservação | One Comment

Imaginem esta cena:

No meio da floresta em um ambiente selvagem, o sujeito espera pacientemente pelo tão sonhado momento, sentado na caçamba de um carro ou numa plataforma em meio às árvores. Silêncio total, nenhum movimento brusco, apenas o som da própria respiração alternando entre ofegante e controlada apesar da adrenalina aumentar a cada segundo enquanto o animal se aproxima.

É chegado o momento, enfim a criatura silvestre se aproxima.  Espreitando o animal, o sujeito se prepara com seu equipamento municiado. Com o animal posicionado na mira, o dedo vai ao gatilho lentamente, esperando o momento perfeito. Tudo pronto, hora de agir. O dedo pressiona o gatilho e então….  Click! 

 

 

Ué?!

Esta pequena narrativa acima poderia muito bem ser a descrição de um caçador munido de seu rifle, esperando para matar um animal muito cobiçado e levar sua carcaça para casa, assim como também se encaixa perfeitamente na descrição de um fotógrafo amante da natureza, munido de sua super câmera com lente telescópica, fotografando um animal que ele sonhava a anos registrar.

O conceito de ambos os cenários é o mesmo e o repórter do jornal El País, Victor Moriyama, nomeia este elemento em comum entre as 2 atividades de “espírito caçador”. Ou seja, adentrar à mata em busca de um animal específico, seja raro ou não, colocando o homem urbano em contato com a natureza a partir da mira de uma máquina, seja uma câmera fotográfica ou um rifle.

 

Foto 1: Melissa ao lado da caça                     Foto 2: Leão livre por Tamara Jim

A diferença é que em uma das opções o sujeito sai com a cabeça do animal que será empalhada e pendurada na parede de sua casa, enquanto em outra,  ele sai com um belo registro fotográfico que pode ser mostrado para pessoas do mundo todo e inspirá-las a conservar espécies ameaçadas.

Assim como na foto ao lado, onde na esquerda a apresentadora de TV americana Melissa Bachman posa ao lado de seu “troféu”, enquanto na direita, o troféu é a maravilhosa foto tirada por Tamara Jim, do maior predador da África, vivo.

 

 

Caça esportiva para conservação

 

A “caça esportiva” é utilizada em alguns países (como África do Sul, Zimbábue, Estados Unidos) como uma fonte alternativa de renda para a conservação, onde de uma forma legalizada e controlada por autoridades governamentais, caçadores pagam grandes quantias de dinheiro para caçar legalmente um animal (Diferente da caça furtiva ou seja, ilegal). Parte deste dinheiro vai para as comunidades locais e financiam ações para a conservação de espécies. Porém, este conceito é ainda muito controverso, e diversos estudos apontam que essa prática pode não estar ajudando na conservação quanto deveria.

Caçador posa ao lado de elefante recém-abatido

O argumento utilizado pelos defensores da caça como instrumento de conservação é de que fazendeiros podem manter grandes áreas de floresta preservadas, e não cederem ao desmatamento para agricultura, se receberem dinheiro por animais mortos por caça esportiva em sua propriedade.

 

Não entrarei no mérito de efetividade ou não desta prática neste post, pois isso demanda uma discussão mais aprofundada. Como foi citado acima, existem estudos pró-caça, mostrando dados positivos em relação ao dinheiro que a caça esportiva gera, assim como estudos mostrando dados e impactos negativos.

 

 

O objetivo deste post é comparar uma prática alternativa, assim como coloco a seguir mostrando o que a fotografia pode fazer pela conservação.

 

 

 

 

Fotografia e ecoturismo para conservação

 

Como citado acima, o argumento de atribuir um valor comercial à espécies silvestres a fim de convencer um fazendeiro preservar suas terras, pode ser aplicado igualmente ao ecoturismo.

Safári fotográfico no Pantanal – Fazenda San Francisco

E se ao invés de receber dinheiro de caçadores para sustentar-se, esse dinheiro viesse de fotógrafos e turistas do mundo todo que vão atrás de fotos incríveis de espécies ameaçadas?

Um exemplo prático de que pode dar certo, é o que vem sendo realizado no Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda – MS, Pantanal Sul pelo Onçafari.

Onças-pintadas avistadas pela equipe do Onçafari. Foto: Gustavo Figueirôa

O projeto trabalha com a conservação e habituação de onças-pintadas para que possam ser avistadas mais facilmente por hóspedes e amantes da fotografia no mundo todo, aumentando drasticamente o fluxo de hóspedes na pousada. Desde que o Onçafari iniciou seus trabalhos na fazenda, o número de hóspedes cresceu 80%, assim como os avistamentos de onça-pintada, que cresceu 120% nos último 7 anos.

 

Foto: Adriano Gambarini

Um estudo realizado pelo biólogo e pesquisador Fernando Tortato, da ONG Panthera (Organização internacional que estuda grandes felinos no mundo todo), comprovou cientificamente os benefícios do ecoturismo.

 

O estudo concluído em 2017 aponta que em um intervalo de 1 ano, cerca de 6,8 milhões de dólares foram arrecadados através do turismo de observação de Onças, contra a perda hipotética de 120 mil dólares para o prejuízo que as onças causam por atacar animais de criação.

 

 

Atualmente, existem sites dedicados exclusivamente à fotografia de natureza, como o Biofaces. O site reúne fotógrafos profissionais e amadores, de todas as idades, gêneros, etnias e países, todos com ao menos duas características em comum: O amor pela natureza e fotografia.

Print da tela do site Biofaces.com

Conclusão

 

Da mesma forma que a caça pode gerar renda para ser investida em conservação, também podem a fotografia e o ecoturismo, de uma maneira muito mais limpa e menos egoísta.

O assunto é complexo, diversos pontos cabem dentro da discussão. Porém, o que é claro e indiscutível é o fato de que matar um animal por puro prazer não pode ser considerado um esporte e não cabe no perfil de uma população supostamente evoluída do século XXI.

Para finalizar, quero induzir à uma reflexão interessante.

Em um trecho retirado do livro do Comandante H. Pereira da Cunha, um conhecido caçador da época de 1950, o próprio autor e caçador cita:

O prazer da caça não consiste, de modo algum, apenas em matar os animais. Realmente, a morte do animal, seja ele pacífico ou agressivo,é a última das coisas que importa e talvez sem ela fosse a caçada ainda mais interessante”.

Livro caçando em África e olhando o mundo – Comandante H. Pereira da Cunha

 

Pois bem…. Se o prazer consiste na busca, na adrenalina de andar pela mata para encontrar o animal, porque não então trocar o covarde e frio rifle por uma bela e imponente câmera fotográfica?

 

 

 

 

 

Por: Gustavo Figueirôa

Biólogo, Esp. em Manejo e Conservação da Fauna Silvestre

Cofundador da GreenBond