Bond da Conservação: Alan Rabinowitz

Geralmente começamos o texto deste quadro de “Personagens da Conservação” com nossa introdução base e desenvolvemos o restante com a trajetória do profissional e seus feitos, mas se vocês leitores me permitirem, hoje gostaria de iniciar de uma forma diferente. 

Eu confesso que quando me pediram para escrever sobre o Alan eu não o conhecia. Não sabia o que tinha feito, apenas que trabalhava com felinos. Pois bem, nas minhas buscas de material para o Blog, me deparo com uma coluna do ((o))eco em que o biólogo Fernando Fernandez escreve sobre um podcast que ouviu do “The Moth” em que Alan Rabinowitz conta sua história. Logo pensei “nada melhor para conhecer a história de alguém do que ouvi-la da própria fonte”. 

E lá vou eu ouvir os 18 minutos de uma história intitulada “Man and Beast” (Homem e Fera). Eu não sou de emocionar, mas fiquei com lágrimas nos olhos do início ao fim. 

Desta forma, é assim que iniciaremos este quadro, irei contá-los esta história, e  para quem entende inglês não deixe de ouvi-la pois é fantástica. Link do podcast: clique aqui. 

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

Podcast Man and Beast

A infância

Nossa história começa em 1958 com um menino de 5 anos visitando o Zoológico do Bronx, NY. O pequeno Alan vê uma velha onça fêmea em sua jaula e se pergunta o que ela fez para estar naquele local. Então se inclina um pouco e começa a sussurrar algo para a onça, mas seu pai logo se aproxima e pergunta o que ele está fazendo.

Alan iria explicar, mas sua boca trava, bem como ele já imaginava  que iria acontecer pois, “tudo na minha infância naquela época era caracterizado pela minha incapacidade de falar”. Desde criancinha Alan sofria de uma gagueira severa, mas não uma gagueira de repetição de sílabas, e sim um completo bloqueio de fluxo de ar que ao tentar falar provocava grandes espasmos.

Nesta época ninguém sabia o que fazer. Havia poucos estudos sobre a gagueira e não havia internet ou computadores para facilitar as pesquisas como temos hoje. Na escola as coisas eram ainda mais complicadas. A solução do sistema de ensino foi colocar Alan na sala de alunos com distúrbios, e apesar dos protestos de seus pais, a escola alegava que essa era única saída, uma vez que toda vez que tentava falar incomodava a todos.

 

 

A grande descoberta

“Eu passei toda minha infância me perguntando porque os adultos não podiam ver dentro de mim, porque eles não podiam ver que eu era normal e que todas as palavras estavam dentro de mim e que elas apenas não saiam.”…“Felizmente desde novo aprendi o que muitos gagos aprendem em algum momento: você pode fazer pelo menos duas coisas sem gaguejar. Uma delas é cantar. A outra é que você pode falar com os animais.” Afirmou Alan.

Todos os dias ao voltar da aula, que as outras crianças chamavam de “a aula dos retardados”, Alan ia direto para seu quarto e entrava em seu closet. Sentava-se no  cantinho mais escuro, fechava a porta e levava consigo seus animais de estimação: hamster, gerbil, tartaruga, um camaleão e uma cobra de jardim.

Então conversava com seus pets, falava fluentemente com eles. Falava suas esperanças, seus sonhos, como as pessoas eram estúpidas por acharem que ele era estúpido. “E os animais ouviam, eles sentiam. E eu percebi que eles sentiam pois eles eram iguais a mim. Os animais têm sentimentos e também tentam transmitir coisas para nós, mas não tem uma voz humana então as pessoas os ignoram, os entendem errado, os machucam e às vezes os matam.” Alan conta. “Eu prometi aos animais quando era jovem que se eu algum dia encontrasse a minha voz, eu tentaria ser a voz deles.” 

Alan vivia em dois mundos: no mundo em que ele se considerava ‘normal’, onde ele conseguia falar com os animais sem dificuldades e no mundo dos seres humanos, onde não conseguia. Seus pais tentaram de tudo, várias terapias, remédios, psicólogos, mas nada funcionava.

 

A juventude

Passou por todas as fases da escola até a faculdade e no caminho foi lidando com a gagueira por meio de isolamento, não conversando, evitando situações e pessoas. Era um excelente aluno e bom nos esportes, inclusive fazendo parte dos times de luta e de boxe, mas não fazia por gosto e sim para aliviar a raiva e frustração que vivia.

“Na época que era veterano na faculdade, eu nunca tinha tido um encontro com uma garota, nunca tinha beijado uma garota, exceto minha mãe, e nunca tinha falado uma frase completamente fluente em voz alta para outro ser humano.” Conta Alan.

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

O tratamento

No meio do último ano de faculdade, os pais de Alan ficaram sabendo de um programa experimental bastante intenso em Geneseo, uma cidade de Nova York,  onde o jovem ficaria dois meses direto para tratar a severa gagueira e, apesar de muito caro, os pais não mediram esforços para que ele fosse. Venderam algumas coisas e mandaram Alan para Geneseo. 

“Aquela clínica mudou a minha vida. Ela me ensinou duas coisas importantes: a primeira é que eu sou gago e sempre serei gago. Não existe uma pílula mágica e eu não vou acordar pela manhã, como sempre sonhei, sendo fluente na fala. A segunda coisa, a mais importante, se eu fizesse o que eles estavam me ensinando, se usasse as ferramentas, se aprendesse a mecânica para controlar mecanicamente a minha boca e o fluxo de ar, se eu trabalhasse duro, poderia ser um gago fluente. E eu trabalhei duro e foi inacreditável! Em 20 anos eu finalmente pude falar!” Relata Alan.

Finalmente nosso Alan estava experimentando uma nova fase. Claro que foi trabalhoso, enquanto falava precisava pensar e controlar o fluxo de ar e outras coisas, mas nada disso importava para ele pois agora a vida seria diferente, ele voltaria para a escola e iriam aceitá-lo. 

 

As mudanças

As coisas de fato foram diferentes, mas no exterior, pois em seu interior ainda se sentia aquela mesma pessoa gaga, frustrada, que cursava medicina não porque gostava, mas para quando se formasse e fosse médico, as pessoas gostassem dele, falassem com ele e o valorizassem. Ele não gostava de trabalhar com pessoas, não gostava de ver os animais de laboratório na situação em que se encontram e o próprio trabalho era frustrante.

Então, no seu último semestre abandonou a faculdade e entrou para a Universidade do Tennessee no curso de biologia e zoologia de animais silvestres. “Então no meu primeiro ano eu estava nas Great Smoky Mountains estudando ursos negros e quando eu estava na floresta com os animais, eu estava em casa. Isso é o que eu nasci para fazer. Estar na floresta sozinho com os animais era meu closet do mundo real. Isso era o que me fazia sentir bem. (…) Era como eu deveria viver minha vida.” Conta Alan.

Logo após seu título de PhD, conheceu George Schaller, um grande zoólogo pioneiro em estudos de animais em campo utilizando radiotransmissores e precursor no estudo de onças pintadas. “Nós passamos um dia juntos seguindo ursos nas Smoky Mountains e no final do dia, George disse para mim: ‘Alan, você gostaria de ir para Belize e ser um dos primeiros a estudar onças pintadas na selva?’ O primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi ‘onde diabos é Belize?’ Mas a primeira palavra que saiu da minha boca 30 segundos depois foi ‘é claro que eu vou’.¨ Lembra Alan (Belize é um país da América Central perto da Guatemala, apenas situando os Alans de plantão!) 

 

O início do trabalho com as onças

Dois meses depois, Alan fez suas malas e dirigiu de Nova York até a América Central. Em Belize. Lá ele aprendeu muito. Aprendeu com os caçadores como capturar onças, aprendeu a segui-las e a estudá-las. Estava vivendo a vida dos sonhos. Apesar das dificuldades com doenças, picadas de animais peçonhentos, estar na natureza e fazer o que amava era como estar no céu. Alan estava feliz, confortável e sentiu que aquilo era o que poderia fazer para o resto da vida.

Mas ele não podia. Não podia porque percebeu que enquanto ele estava capturando e estudando as onças, elas estavam sendo mortas na frente dele, tanto as da área de estudo quanto as de fora dela. “Eu podia ficar sentado na selva, mas aí não estaria sendo fiel comigo mesmo e o mais importante, eu não estaria sendo fiel com a promessa que fiz aos meus animais no meu closet que eu seria a voz deles. E eu tinha a voz agora.” Disse Alan.

 

Alan Rabinowitz. Foto: https://myhero.com/

 

Travando a luta pela conservação das onças 

Foi então que Alan percebeu que teria que voltar à realidade. Teria que voltar para o mundo das pessoas e tentar lutar de alguma forma para salvar as onças. Ironicamente ele percebeu que para salvar estes animais ele não teria apenas que voltar para o mundo das pessoas, mas teria que tentar alcançar o governantes, teria que falar com o primeiro-ministro. 

Seis meses depois estava na porta do primeiro-ministro. Tinha ganhado 15 minutos para expor suas ideias e não tinha  a menor ideia do que falar. “Eu tinha 15 minutos, não podia gaguejar. Não podia distraí-los do ponto central que era salvar as onças. Eu tinha que usar tudo que tinha aprendido e ser um falante completamente fluente e convencer um dos países mais pobres da América Central, que não possuía nenhuma área protegida naquela época, no qual o turismo não era valorizado, de que eles tinham que salvar onças.” Conta Alan.

Uma hora e meia depois foi em votação a criação da primeira reserva de proteção de onças do mundo. “…e eu prometi para eles que iria funcionar. Eu prometi que mostraria para eles que geraria benefícios econômicos.” Lembra Alan.

 

De volta à selva 

Um mês depois, Alan estava de volta à selva, seguindo suas onças pelo rastro. Ele conhecia todas as onças da sua área de estudo pelas pegadas. Mas neste dia ele encontrou uma pegada nova, a maior pegada de uma onça macho que ele havia visto em toda a vida.  “Eu sabia que deveria segui-la.” Ele precisava ver, saber o que o macho  fazia, se ele vinha de fora, se só estava de passagem.

 

E então ele seguiu os rastros. Seguiu por horas até perceber que estava ficando escuro e não queria ser pego na floresta à noite, principalmente sem lanterna. “Então eu me virei para voltar para o acampamento. Assim que me virei, lá estava ele, a menos de 5 metros atrás de mim. Aquela onça, que eu estava seguindo, tinha dado a volta ao meu redor e estava me seguindo enquanto eu seguia ele. Ele poderia ter me matado a qualquer momento, poderia ter me pegado e eu nem estava ouvindo ele. Eu sei que deveria estar apavorado, mas eu não estava… Instintivamente me abaixei e a onça se sentou. E eu olhei em direção aos olhos dele e me lembrei do pequeno garoto olhando para a triste e velha onça do Zoológico do Bronx. Mas este animal não estava triste. Nos olhos deste animal havia força, poder, certeza de um propósito. E eu percebi que o que eu estava vendo nos olhos dele era o reflexo do que eu estava sentindo também. Aquele pequeno garoto triste e aquela onça infeliz eram agora tudo isso.” Conta Alan

“Repentinamente eu fiquei com medo, eu sabia que tinha que ficar com medo, então eu me levantei e dei um passo para trás. A onça se levantou também. Ele se virou e começou a andar em direção a floresta. Depois de 3 mstros, ele parou e se virou para olhar para mim. Eu olhei para aquela onça e me inclinei em direção a ela, assim como havia feito no zoológico do Bronx tantos anos atrás, e sussurrei para ele ‘Está tudo bem agora. Tudo vai ficar bem.’ E a onça se virou e foi embora.” Alan lembra.

Bom, esta é a história. Espero que vocês tenham gostado assim como eu. Mas não para por ai…

 

A luta pela conservação

Após ter estudado as onças pintadas e de ter sido o grande responsável pela criação da primeira reserva de proteção às onças, a Cockscomb Sanctuary and Jaguar Preserve em Belize, Alan Rabinowitz viajou o mundo estudando e lutando pela conservação de leopardos asiáticos, do leopardo nebuloso, tigres, rinocerontes da Sumatra, ursos, gatos leopardo, guaxinins e civetas. 

Trabalhou na Tailândia conduzindo a primeira pesquisa utilizando rádio telemetria em leopardos asiáticos, gatos leopardos e civetas no santuário de vida selvagem Huai Kha Khaeng no mundo. Este trabalho contribuiu para que este santuário se tornasse Patrimônio Mundial da UNESCO. 

Em 1997, agora em Mianmar, descobriu quatro novas espécies de mamíferos, incluindo o cervo-folha, que é considerado a espécie de cervo mais primitiva do mundo. Seu trabalho em Mianmar levou à criação de cinco áreas protegidas. Os resultados das conquistas da conservação incluem o primeiro parque nacional marinho de Mianmar, o primeiro e maior parque nacional himalaio, o maior santuário de vida silvestre  do país e a maior reserva de proteção de tigres do mundo!

 

 

O corredor de onças pintadas

Em seus estudos e pesquisas, Rabinowitz descobriu que não havia subespécies de onças pintadas, geneticamente diferentes, desde os Estados Unidos até a Argentina, era apenas uma espécie. 

Então idealizou e implementou o Jaguar Corridor Initiative, um programa de conservação de áreas de uso das onças, todas conectadas a fim de garantir a integridade genética da espécie. Este corredor vai do norte do México até a Argentina e passa por 18 países.

 

Panthera

Em 2006, co-fundou a Panthera, a única organização do mundo que trabalha exclusivamente em prol da conservação das 40 espécies de felinos selvagens e seus ecossistemas. 

Contando com vários especialistas, a organização possui diversos projetos de conservação. Atua por meio de parcerias com ONGs, governantes ao redor do mundo, populações locais, instituição de pesquisas e todos aqueles que querem ajudar na conservação e futuro dos felinos selvagens.

Também criou um programa de estratégias para reduzir as ameaças enfrentadas pelos tigres, o Tigers Forever. Contou com a ajuda de ONGs, membros da comunidade e governantes para este programa de conservação que consistia em monitorar e não deixar os tigres serem vítimas de caçadores, além de reforçar a aplicação das leis.  

 

Os feitos de Alan Rabinowitz são muitos e suas contribuições são incontáveis. Infelizmente, devido a um câncer, Alan nos deixou em 2018, mas seu legado e objetivos em prol da conservação estarão sempre presentes. Continuaremos a luta por ele, pelos animais e pelo nosso mundo.  

MUITO OBRIGADA ALAN! 

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves
Revisado por Fernanda Sá

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