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Fernanda Sá

Medicina Veterinária além dos animais

By | Datas comemorativas | No Comments

Médicos veterinários atuam em diversas áreas e enganam-se aqueles que pensam que os trabalhos se restringem a consultórios, zoológicos ou fazendas atendendo a animais. Na realidade, veterinários atuam, inclusive, na saúde humana e ambiental, como no controle de zoonoses, por exemplo.

Hoje, nesse dia do veterinário, queremos mostrar o quão diversa pode ser essa profissão e, ninguém melhor para isso do que nosso co-fundador e médico veterinário, Diego Arruda.

 

Foto: Diego Arruda

 

Medicina veterinária, empreendedorismo, marketing, comunicação e consultoria. Estas são apenas algumas das áreas que Diego atua e concilia harmoniosamente, tendo como eixo central, a conservação da biodiversidade.

Não é de agora que Di tem essa paixão pelos animais. Desde sempre foi fissurado pelos bichos e já tinha em sua cabeça de menino, que era com eles que queria trabalhar. Sempre teve muito contato com a natureza e viajava bastante para o interior nas férias, onde tinha muita conexão com cavalos. Devido a isso, entrou na faculdade pensando em trabalhar com estes animais. 

Para sua surpresa, a visão que Diego tinha sobre o que era trabalhar com cavalos era bastante diferente do que lhe foi apresentado na prática e jovem estudante e acabou se encontrando na nutrição. Ainda no segundo período da faculdade, entrou na Iniciação Científica nesta área e permaneceu nela até o último ano do curso. 

 

A nutrição e o Marketing

Di conseguiu uma oportunidade muito boa para estagiar na Tortuga, atual DSM Nutrição e Saúde Animal, que era a maior empresa de nutrição de animais de produção do Brasil, onde trabalhava no setor de marketing técnico e atendimento técnico ao cliente.

Foi naquele estágio que a veia do marketing surgiu na vida do nosso veterinário. Di participou de campanhas, criação de pesquisas de mercado, reuniões e criou o programa “Tortuga Universitário” em que recrutava novos talentos e divulgava a empresa, já que em São Paulo a área de produção não era tão acentuada quanto a clínica de pequenos. Lá dentro cresceu, aprendeu e permaneceu até o estágio obrigatório. A visão de poder trabalhar com o marketing no futuro ainda não era muito clara para Di, mas a experiência que ganhou em seu trabalho, tornou o marketing parte de sua essência. 

 

Nem só de marketing vive um homem

No período em que estagiava na Tortuga, Di aproveitava as férias e oportunidades que surgiam para fazer estágios em clínicas de ruminantes, trabalhar com gado de leite em fazendas, mais focado na produção. A clínica de pequenos animais nunca o atraiu muito, apesar de amar cães e gatos. 

Foto: Diego Arruda 

E chega ao fim do estágio obrigatório

Diego estava realmente muito bem adaptado ao seu estágio, porém não podia continuar por mais de três anos na mesma empresa e então teve que sair da sua zona de conforto e finalizar seus últimos três meses de estágio obrigatório em outro local.

Na época, Di já conhecia Carolina Lorieri, sua atual parceira de trabalho na Conservare Consultoria. Carol trabalhava com animais silvestres e movido pela curiosidade, Di foi estagiar no zoológico e acabou se apaixonando pela área. 

Com seu jeitão exótico de ser, Diego logo se encantou pelos répteis. “O que mais me marcou foi a primeira vez que eu pulei em cima de um jacaré-de-papo-amarelo para fazer contenção e quando eu fiz contenção de serpentes.”, conta Di. 

 

Foto: Diego Arruda

 

Diego trabalhou  no zoológico apenas um mês, mas foi o suficiente para querer trabalhar com silvestres no futuro.

Nos seus outros dois meses, Di estagiou no Instituto Butantan, onde trabalhava com serpentes peçonhentas, aracnídeos, macacos Rhesus e outros animais.

 

Foto: Instituto Butantan

 

Residência

Por ter se apaixonado pelo Butantan, Di prestou a residência para trabalhar lá e conseguiu. Nesse período, estudou bastante para prestar um trabalho de excelência durante os dois anos da residência e inclusive, foi no Butantan que Diego conheceu nosso biólogo Gustavo Figueiroa. 

Di era responsável pelo berçário, monitorando, alimentando e cuidando dos filhotes, juntamente com seu estagiário Gustavo. Lá Diego começou a se interessar pela clínica de répteis e a veia empreendedora começou a saltar.

Pensava em abrir clínica, projetou um zoológico de répteis que, inclusive, chegou a apresentar a ideia para o secretário do meio ambiente de São José dos Campos. Não queria ficar parado, tinha ideias a todo vapor.

Se especializou em clínica e cirurgia de animais silvestres e após a conclusão da residência começou a atuar nessa área porém, algo ainda não estava certo. Não era bem aquilo que Diego queria para sua vida.

 

Foto: Diego Arruda

 

Um caminho com altos e baixos

Como nem tudo nessa vida são flores, Diego passou por momentos de “início de um sonho/deu tudo errado”, assim como todos nós. 

Surgiu uma oportunidade muito boa de trabalho com serpentes no exército. Di queria muito que desse certo, mas quando terminou sua especialização, não conseguiu o certificado de conclusão a tempo da segunda fase e, devido a isso, não pode continuar o processo. Foi um momento difícil para ele, mas mesmo assim, não desistiu. No ano seguinte, prestou mais um ano de concurso, mas eram apenas quatro vagas no Brasil todo e mais uma vez, não deu certo. 

Após esse período conturbado, Diego foi morar na África durante 4 meses. Ao retornar, decidiu colocar sua vida no eixo. “Preciso trabalhar, preciso saber o que eu vou fazer. Clínica não é minha praia, não é o que eu quero, eu precisava voltar pro mercado que eu tinha capacidade e que eu sabia que ia poder ter um pouco mais de conforto.”, conta Di.

 

Foto: Diego Arruda

 

Diego voltou para a parte de nutrição e vendas, mas sempre com aquela vontade de trabalhar com estratégias de marketing e comunicação.

Durante quatro anos, Di trabalhou com vendas. Começou em uma empresa pequena, foi crescendo, conquistando empresas maiores, multinacionais, até que surgiu a oportunidade de trabalhar na Hill’s, uma empresa de nutrição animal da Colgate, onde permaneceu três anos, trabalhando com marketing e vendas.

 

Ideias a todo vapor.

Como nosso querido veterinário não fica parado, durante o tempo na Hill’s, Diego começou seu MBA em Marketing Digital. Em uma das matérias, a proposta era a criação de uma empresa a partir de uma ideia que você gostasse. Como além de empreendedor, Di também é alucinado pela natureza e conservação, nascia ali o projeto da GreenBond. 

Naquela hora, o propósito que Diego estava buscando chegou esmurrando a porta, com os dois pés no peito, gritando “É ISSO AQUI, MEU ANJO, FOCA AQUI QUE É SUCESSO E REALIZAÇÃO PROFISSIONAL E PESSOAL”.

Por ter vários amigos do meio da conservação e por saber das dificuldade de realizar um projeto, arrecadar recursos e de fazer de fato acontecer, Di foi cauteloso.  Depois de muitas conversas e lapidar bem a ideia, convocou seu amigo Gustavo Figueiroa para essa empreitada de marketing, comunicação e conservação. Gu, sem nem saber bem do que se tratava ainda, aceitou prontamente.

 

Diego e Gustavo. Foto: Diego Arruda.

 

Solta o verbo, Di!

Hoje, Diego tem diversos projetos, como a GreenBond, Wildingtone e a Conservare Wild Consulting, e tem uma visão muito ampla em todos eles. É um profissional que caminha em diversos setores, mas consegue costurar tudo, de forma que não deixa uma ponta solta. E o principal, é extremamente feliz no que faz.

Uma das principais razões por Di ser o que é hoje é devido ao amor e a veterinária. O amor pelos animais, pela natureza, pelas novidades, por arriscar. 

As diversas áreas, todas de alguma forma interligadas a veterinária, juntamente com a vontade de mudança, moldaram o profissional único que Diego é hoje. 

 

Diego e Gustavo. Foto: Frico Guimarães/Edson Vandeira

 

“A veterinária é uma profissão maravilhosa, é uma profissão incrível. (…) A veterinária explora um lance de investigação, de você ir mais a fundo, de você estudar, se aprofundar, que é muito próprio dela. Só que ao mesmo tempo, a veterinária é muito ampla, tem um leque enorme. Você pode trabalhar com inspeção de alimentos, trabalhar com produção de carne, produção de leite, (…) com a parte clínica e cirúrgica de cada animal diferente (…), pode ser veterinário de projetos de conservação, trabalhar com pesquisa, pode ser burocrata, trabalhar com venda de produtos veterinários para outros veterinários, treinamento de outros veterinários (…). A veterinária é muito ampla e isso é apaixonante.”, finaliza Di.

Neste Dia do Veterinário queremos parabenizar a todos os médicos veterinários formados e aos futuros profissionais. Aqueles que possuem suas certezas e os que possuem suas dúvidas. Os da clínica e os de fora dela. A todos que amam o que fazem e são únicos! Para aqueles que possuem sonhos: confia e vai! Faça igual ao nosso #Bond e trilhe seu próprio caminho! 

 

Feliz dia do médico veterinário!

Me deparei com uma onça, e agora?

By | Onça-pintada | No Comments

Imagine só: você está andando pelo mato, a trabalho ou apenas por lazer, quando de repente você avista duas onças-pintadas deitadas a 20 metros de onde você está. O que fazer? Correr? Sair de fininho? Assustá-las? Bom, isso é o que nosso biólogo Gustavo Figueiroa vivenciou em um dos seus trabalhos no Pantanal e hoje, ele nos contará qual a atitude correta frente a situações como essas. 

 

Onça-pintada e onça-parda

Antes de tudo é importante dizer que, no Brasil, temos duas espécies de onças. A onça-pintada (Panthera onca) e a onça-parda (Puma concolor). A onça-pintada é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, podendo chegar a mais de 100 kg!  São animais carnívoros e predadores topo de cadeia, se alimentando desde animais pequenos a grandes antas e jacarés. Ocorrem em quase todos os biomas do Brasil, porém possuem populações maiores e mais estáveis no Pantanal e na Amazônia, uma vez que são áreas maiores, mais preservadas e com menor ocupação humana. 

 

Áreas de ocorrência da Onça Pintada. Imagem: IUCN

 

Devido a caça e a perda de habitat gerada pelo desmatamento, as onças-pintadas são consideradas “Vulneráveis” de acordo com o ICMBio-MMA e “Quase Ameaçada” pela IUCN. 

 

As onças-pintadas possuem pelagem amarelo-dourada e pintas pretas na cabeça, pescoço e patas. No resto do corpo possuem rosetas com pintas dentro, assim como mostrado no destaque. Foto: Gustavo Figueiroa

 

Já as onças-pardas, ou suçuaranas, são menores que as onças-pintadas, pesando entre 50 a 72 kg e possuem uma distribuição bem mais ampla, tendo populações bem estabelecidas por todo o país. Assim como as onças-pintadas, são estritamente carnívoras, mas apresentam uma dieta mais generalista, podendo comer até lagartos, aves e insetos. 

Áreas de ocorrência da onça-parda. Imagem: IUCN

 

Além de sofrerem com a caça, perda e fragmentação do habitat, também sofrem com atropelamentos. Devido a isso, seu status de conservação é “Vulnerável” pelo ICMBio-MMA, mas “Pouco preocupante” de acordo com a IUCN. 

As onças-pardas possuem cores que vão do cinza claro até um marrom avermelhado. Seus filhotes são bege/pardo com listras.

 

Foto: Milan Zygmunt / Shutterstock.com

 

Mas afinal, se elas são carnívoras, então estamos no cardápio delas? 

Para a glória e alívio de todos, não! Os seres humanos não fazem parte do cardápio da onça-pintada e nem da onça-parda.

 

Arte: Anna Luisa Michetti Alves/Greenbond. 

Então por que elas nos atacam? 

Bom, na verdade existem poucos registros de ataques de onças-pintadas a humanos no Brasil e de onça-parda não há nenhum. Basicamente, todos os ataques acontecem devido a conduta errada do ser humano, como por exemplo: aproximar de uma fêmea com filhote, aproximar-se enquanto uma onça se alimenta, durante o acasalamento ou encurralá-las. Nesses casos, elas podem atacar em uma tentativa de defender sua prole, sua comida ou elas mesmas.

 

O que fazer caso encontre uma onça  

Nosso biólogo Gustavo nos explicou tudinho sobre como nos portar e o que fazer em uma situação cara a cara com o perigo.

Primeiro de tudo: mantenha a calma. Isso evita que façamos alguma besteira. Segundo, fique parado e pareça maior. Podem ser levantados os braços, por exemplo. Vá se afastando devagar da onça, sempre de frente para ela. Observá-la enquanto se afasta é importante. Por fim, tome uma distância segura e siga seu caminho. Caso a onça se aproxime, levante os braços e grite. 

 

Arte: Anna Luisa Michetti Alves/Greenbond. 

 

O que NÃO fazer caso encontre uma onça

Não se aproxime mais. 

Não faça movimentos bruscos. 

Não se abaixe, não engatinhe, não se agache. 

Não vire de costas e não corra! 

Esses comportamentos são os de presa e não queremos que ela nos confunda com uma presa, não é mesmo? 

 

Arte: Anna Luisa Michetti Alves/Greenbond. 

 

E funciona mesmo? Nem tô botando fé…

Gu nos contou alguns relatos em que esteve cara a cara com onças-pintadas e agiu segundo as recomendações. Em todos os casos teve sucesso. 

 

“Ela tava muito perto de mim mesmo, a 4 metros. Era um pulo. É uma zona que a gente fala que é “a zona mortal”

Gus tinha começado seu trabalho monitorando onças no Pantanal havia pouco tempo. Ele e a equipe ficaram sabendo que uma onça-pintada havia matado um boi na região e arrastado a carcaça para uma área de mata fechada. O plano era pegar a carcaça e levar para uma região aberta a fim de atrair a onça à noite, quando eles voltariam. Início da execução do plano, aparentemente tudo tranquilo. Nenhum barulho, nenhum sinal de onça. Gustavo entrou na mata para amarrar uma corda no pé do boi e puxar com a caminhonete, quando ao tocar no animal, ouviu o esturro da onça que estava atrás de uma moita a apenas 4 metros de onde ele estava. “Ela tava muito perto de mim mesmo, a 4 metros. Era um pulo. É uma zona que a gente fala que é ‘a zona mortal’, não tem o que fazer (…) tem que confiar nas técnicas que eu falei”, relata Gustavo. 

Ao receber o aviso mais do que claro de soltar a caça, Gu largou o boi, se levantou calmamente e foi se afastando olhando em direção a moita e a carcaça, pois ele ainda não havia avistado a onça. Conseguiu se afastar até uma distância segura e voltou para o carro, vivo.  Tremendo mais que vara verde, mas vivo. 

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

Outra situação foi durante a temporada de captura de onças, que é quando os pesquisadores capturam onças para avaliá-las e colocar colares GPS para monitorá-las. Para as capturas são utilizadas armadilhas de laço, que ficam escondidas no chão. 

Na temporada em questão, ainda não haviam capturado nenhuma onça e, em uma das idas a campo, avistaram uma onça que tinha acabado de matar um jacaré. A onça se assustou com o carro e fugiu, deixando a caça para trás. A equipe então planejou usar o jacaré como isca e armar a armadilha ali perto, de modo que quando a onça retornasse para comer, fosse capturada para a pesquisa. 

E começa o processo… Enquanto o veterinário da equipe estava montando a armadilha, Gu foi pegar o jacaré para poder colocar como isca. Eis que a onça resolveu voltar e deu de cara com Gustavo carregando a presa que tinha acabado de caçar. Imagina a cena: o veterinário agachado montando a armadilha a menos de 10 metros da onça. Gustavo com o jacaré nos braços também a menos de 10 metros. A onça indo em direção dos dois, agachada, em posição de ataque. Tudo certo para dar errado. 

Mas é claro que nosso biólogo ia sair dessa. Imediatamente soltou o jacaré. O veterinário ao ver a cena, entendeu o que estava acontecendo e se levantou. A onça, que estava indo na direção deles, parou e os dois começaram a se afastando devagar, sempre de frente para ela, até chegar ao carro, que não estava muito distante.

 

Foto: Ailton Lara

 

Então o Gustavo que é um sortudo de ter saído ileso?

Não, ele apenas seguiu todas as recomendações para evitar um ataque e conseguir sair das situações em que entrou. É super importante ter em mente que a nossa resposta frente a ameaça é o que irá definir o resultado final. Se tivermos a resposta adequada, possivelmente sairemos ilesos. 

 

Foto: Paula Dias Ho

 

Outra informação importante: ao avistar uma onça, em uma uma distância segura, não esqueça de tirar uma foto bem bonita, porque é um privilégio, viu! 

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

Conhecendo o maior primata das Américas – Dia Nacional dos Muriquis

By | Datas comemorativas | No Comments

Hoje, dia 27 de Agosto, é dia deles! Deles, que são os maiores primatas das Américas, amam abraçar e possuem um quinto membro! Bom, se você pensou nos muriquis, está completamente correto! Caso você não o conheça, vem comigo que eu te apresento! 

Os muriquis são primatas endêmicos da mata atlântica brasileira, isto é, ocorrem apenas naquela região. Eles pertencem ao gênero Brachyteles e são divididos em duas espécies: o Muriqui-do-Norte (Brachyteles hypoxanthus) e Muriqui-do-Sul (Brachyteles arachnoides).

Os muriquis-do-norte ocorrem na Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, enquanto que os muriquis-do-sul ocorrem nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. 

 

Muriqui-do-norte. Foto: Marilha Mardegan.

 

Diferenciando os muriquis-do norte e dos muriquis-do-sul  

Os muriquis-do-norte e do muriquis-do-sul possuem algumas características que nos permite diferenciá-los. Além de ocorrerem em locais distintos, os muriquis-do-norte possuem uma despigmentação no rosto e na genitália, pêlos mais claros e possuem nas mãos, um dedão vestigial, enquanto os do muriquis-do-sul possuem o rosto preto, assim como a genitália, pêlos mais escuros e não possuem nenhum vestígio de dedão. 

 

Muriqui-do-sul e muriqui-do-norte. Imagem: Stephen D. Nash.

 

Uma característica comum, super importante para as duas espécies, é a presença da cauda. A cauda dos muriquis é preênsil, ou seja, adaptada para envolver e segurar. Devido a isso, a cauda dos muriquis funciona como um quinto membro, com capacidade de sustentar todo o peso do corpo deles! 

 

Muriqui-do-sul. Foto: Mariana Landis/Associação Pró Muriqui.

 

Hábitos

Os muriquis vivem em grupos que podem passar de 90 membros e se deslocam por grandes distâncias à procura de alimento. Por vezes se deslocam em fila, passando pelas mesmas árvores para evitar quedas.

Sua alimentação é totalmente vegetariana, comendo folhas, frutos, flores e até brotos de bambu. Por comerem frutos, acabam sendo ótimos dispersores de semente, tendo assim uma importante função ecológica de restaurar a mata! 

 

Muriqui-do-norte. Foto: Adriano Gambarini.

 

Os muriquis são primatas pacíficos, tendo poucas ocorrências de agressões e disputas violentas. Um comportamento afiliativo muito marcante da espécie é o abraço. Ele serve tanto para fortalecer o laço entre os integrantes de um mesmo grupo, quanto para confundir predadores e parecerem maiores para outros grupos. 

 

Muriqui-do-norte. Foto: Fernanda Tabacow.

Ameaças

Devido a perda de habitat, fragmentação da mata atlântica e caça, o estado de conservação da espécie é bastante preocupante, sendo listados como “criticamente em perigo de extinção”. Para vocês terem ideia, restam menos de 1000 indivíduos de muriquis-do-norte na natureza e cerca de 1.300 muriquis-do-sul.

Devido a isso, várias instituições desenvolvem projetos importantíssimos em prol da conservação dos muriquis e, inclusive, em nosso blog, já falamos de uma personalidade super importante, que a mais de 38 anos se dedica a pesquisa e conservação dos muriquis-do-norte, a Dra. Karen Strier.

 

Muriqui-do-norte. Foto: Marilha Mardegan.

 

Conservação

Uma das instituições de conservação dos muriquis-do-norte é a MIB: Muriquis Instituto de Biodiversidade, que possui diversos projetos envolvendo o muriquis-do-norte. 

Para conhecer mais sobre o MIB e seus projetos, acesse suas redes sociais! 

Site do MIB: clique aqui

Instagram do MIB: clique aqui 

Já uma instituição que trabalha com a conservação dos muriquis-do-sul é a Associação Pró Muriqui e para conhecer mais sobre o trabalho, clique aqui! Instagram do Pró Muriqui: clique aqui.

 

Você já conhecia esses animais incríveis? Vem com a gente na conservação dos muriquis! 

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

 

Viagem a Sumatra: um encontro com os orangotangos

By | Não categorizado | No Comments

Os orangotangos são grandes primatas de hábito arborícola, pelo avermelhado, um cérebro complexo e com ausência de rabo. Fazem parte do grupo dos antropóides,  macacos com bastante semelhança com humanos, e estão no mesmo grupo dos chimpanzés, gorilas e bonobos.  

Nativos da Indonésia e da Malásia, hoje só são encontrados nas florestas tropicais de Bornéu e Sumatra e seu estado de conservação é extremamente preocupante. Isso se deve a diversas ameaças como a caça e  a destruição de seus hábitats. 

Hoje, no dia mundial dos orangotangos, contaremos um pouco sobre a experiência do nosso biólogo Gustavo Figueroa, no turismo com os Orangotangos-de-Sumatra (Pongo abelii).

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

Nossa história começa com um outro sonho de Gustavo. Ver de perto Dragões de Komodo (Varanus komodoensis) . Estes lagartos só são encontrados nas Ilhas de Komodo e, movido pelo desejo de encontrar estes gigantes, Gustavo planejou sua viagem à Indonésia. Completamente apaixonado pela fauna em geral, Gustavo também incluiu a Sumatra no roteiro, onde poderia observar de orangotangos em vida livre.

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

“Comecei procurando um centro de reabilitação de orangotangos, já que lá tem alguns, e aí vi um lugar que é onde eles soltam os orangotangos. Têm os orangotangos já da floresta, uma população já estabelecida… e eles fazem soltura nesse parque nacional que chama Parque Nacional de Gunung Leuser. Entrei em contato com uma agência que fazia esse passeio pelo Parque Nacional e fechei um pacote de cinco dias.”, nos conta Gustavo. 

 

Indo até o destino

O acesso até o parque não é dos mais fáceis. Até chegar ao destino é preciso sair do Brasil e ir até Bali, na Indonésia. De Bali pegar um voo até Medan, capital da província Norte de Sumatra e depois pegar uma “estrada péssima”, de acordo com Gustavo, em um trajeto de cinco horas até chegar em um vilarejo. 

Figueiroa nos conta que nessa estrada, só se vê plantação de palma, a grande responsável por desmatamentos na região e infelizmente pela mortes de muitos orangotangos. Do vilarejo é preciso seguir a pé por mais meia hora até chegar em uma vilazinha e de lá, finalmente, sair em caminhada mata adentro no parque nacional em busca dos bichões. Uma busca que dura  em torno de 3 dias.

E o passeio é uma aventura mesmo, pois nesses três dias você acampa no meio da mata, bebe água e toma banho de rio e as comidas são cozidas lá mesmo, ovo, macarrão e arroz. Claro que têm os guias que irão acompanhar e conduzir durante todo o tempo, mas não é moleza, não viu? E olha que tem passeio que pode durar até 10 dias! Tudo a pé e sem luxo nenhum. Natureza pura!

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

E começa a aventura

Já no primeiro dia, Gustavo e seu grupo, avistaram com pouco menos de uma hora de trilha, um grande macho se alimentando de folhas no alto de uma árvore. “Mais pra frente no caminho, a gente viu um jovenzão que tava lá tirando onda com a gente, ele desceu (da árvore). Alguns desses que foram reintroduzidos, chegam mais próximos dos humanos. Eles já tiveram esse contato então não têm muito medo. Aí ele chegava, descia da árvore e tentava pegar coisa da nossa mochila.”, relata Gustavo. 

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

O segundo dia foi cheio de encontros e aventuras inusitadas, com direito até a perseguição de orangotangos! 

As trilhas da mata são muito estreitas e não tem outro caminho, que não seja segui-las, pois a floresta é bastante densa. Essas trilhas são utilizadas tanto pelos humanos quanto pelos orangotangos.

“A gente tava passando, estávamos em fila, tinha dez pessoas na nossa turma, contando com os guias, e aí a gente olhou pro lado e tinha uma mãe com um filhote mamando nela. A gente achou muito massa, começou a tirar foto e eu passei na frente, eu e mais três pessoas do grupo, pra pegar um ângulo melhor e nisso a mãe saiu do meio do mato e parou no meio da trilha, dividindo nosso grupo.” Conta Gustavo.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

“Aí ela começa a vir na nossa direção com o filhote agarrado nela, parece uma bolsa, e nisso vem outro filhote, que é um jovenzão grandão e ele sai também e vem na nossa direção, ai o guia fica tipo ‘vamo, vamo, corre, corre, corre’ e começamos a correr… Ela começa a vir atrás da gente e a gente com passo acelerado. Andamos por meia hora com nosso grupo separado e os orangotangos no meio e aí tem uma parte que o grupo consegue passar os orangotangos e todo mundo se junta de novo. A gente começa a andar e fala ‘pronto, despistamos eles né’ e então paramos na beira de um riacho para comer.”, Lembra Gustavo.

“Sempre que a gente vai comer, os guias abrem um plástico para colocar no chão para a gente sentar e fazer tipo um piquenique. Na hora que ele abriu o plastiquinho e colocou no chão, quando ele começou a preparar comida, começou a descascar os tomates, o outro guia: ‘ó eles estão vindo, estão vindo’ daí não deu nem tempo. A gente largou as comidas lá. Caí dentro do rio, fui tentar correr e caí dentro do riachinho, era um riachinho pequeno, não era muito fundo. Aí eles já vieram, a mãe já entrou pegando nossa comida. A gente já foi pra dentro do rio porque no rio eles não entram, eles tem medo de água e a gente ficou olhando de lá.”, relata Figueiroa.

Pouco tempo depois, o jovem sobiu em uma árvore e a fêmea em outra. A mãe acabou atravessando para o outro lado  utilizando a árvore, liberando assim o caminho para que o grupo de turistas pudesse correr para longe.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

O perrengue continua

“A gente andou umas duas horas sem parar para descansar (…), depois de umas duas horas, a gente sem almoçar, perdeu metade do almoço que eles roubaram, já era umas duas horas da tarde, sete horas andando que nem louco, a gente não aguentava mais, aí falamos ‘vamo parar em algum lugar aqui pra comer pelo amor de Deus’. Aí o guia ‘Não, vamos andar mais’… andamos mais uma hora até chegar em um lugar que o guia falou ‘Acho a gente despistou ela já, dá pra comer.’… A gente parou de novo, ele conseguiu montar o resto da comida, a gente começou a comer, mas ele falou ‘ó fica com as mochilas próximas porque pode ser que ela apareça de novo’. Ai umas amigas minhas largaram as mochilas, elas estavam muito cansadas, e eu com a minha mochila nas costas já. Eu terminei de comer e uma amiga minha não aguentou comer tudo e falou ‘quer o resto?’ e eu como bom taurino falei ‘lógico’. Eu peguei e comecei a comer o troço dela ai o guia ‘mano, eles tão aqui!’ … Só que na hora que ele falou, eles já estavam em cima mesmo, não deu nem tempo. Na hora que ele falou ‘eles estão aqui’ eu levantei pra correr, na hora que eu dei dois passos eu senti minha mão sendo segurada, parecia que eu tinha sido algemado num poste, travou minha mão. Na hora que eu olhei pra trás era a fêmea, a mãe, me segurando. ” Conta Figueiroa.

 

Medo na hora, história de aventura depois

“Foi muito forte, fez marca no meu pulso. Ficou marcado os dedos dela no meu braço. Eu olhei e ela sentada me segurando, olhando pra mim e nisso eu olhei pro lado e só lembro da cena do jovenzão vindo na minha direção… e daí ele segurou a mão que eu estava com a comida (…) ele veio e pegou meu rango, saiu fora e na hora que a mãe viu que ele saiu fora, ela me soltou. Ela segurou pro filho dela pegar minha comida.”, conta Gustavo.  

“Ela me soltou e nisso ela segurou a mão da minha outra amiga que tava comigo e o jovenzão foi lá e também pegou a comida dela. Aí a gente desceu, mas não correu porque eles ficaram com as comidas lá, eles começaram a correr e não vieram mais atrás da gente. Ficamos a uns cinco metros olhando eles comendo e foi muito doido porque minhas amigas deixaram todas as coisas lá e o guia falou ‘vamos indo, vamos indo se não eles vão continuar atrás da gente, depois a gente pega as coisas que vocês deixaram aqui’. Elas deixaram mochila, garrafa d’água, tudo lá.” Relata Gustavo.

“Antes de ir embora eu lembro que eu vi a cena da fêmea que pegou uma garrafa d’agua da minha amiga e era de rosquear, ai ela ficou olhando, tentou puxar, não conseguiu e depois ela desrosqueou o bagulho e tomou água da garrafa!!!!! Falei ‘noooossa, não acredito velho’… Aí a gente teve que ir embora pra eles não continuarem indo atrás da gente, mas foi muito doido, foi uma experiência f*dástica! A gente continuou andando e chegou até o acampamento que a gente ia dormir na beira do rio. (…)  A gente chegou no rio para tomar banho, era um rio grande que tinha lá, mas não era muito fundo não, era um rio de pedra. Na hora que a gente tava tomando banho lá a gente viu um lagarto monitor descendo e vindo atrás de peixinhos e moluscos para comer e eu, todo ensaboado, sai do rio para ficar olhando ele.”, completa Gustavo.

 

Foto: Gustavo Figueiroa

 

Último dia 

A trilha na mata é apenas de ida. A volta é por meio do rio, onde cada um desce em boias com suas coisas. “Você anda três dias e no último dia, no último acampamento, (…) a gente volta boiando em umas bóias de pneu de caminhão pelo rio. E é um rio de corredeiras, tem umas partes que são meio tensas”, conta Gustavo. 

Com mais essa aventura aquática, os amigos retornaram para a vilazinha, que fica na beira do Parque Nacional e lá avistaram ainda mais dois orangotangos, para fechar com chave de ouro o passeio!

Por essa história, percebemos que não é um programa para qualquer um. Não é como um safári em que os animais estão habituados aos carros e você vai embora caso não goste. É uma aventura no meio da floresta vivendo todas as experiências possíveis, ciente de que caso aconteça algo com você, a responsabilidade é toda sua. Justamente por isso, antes mesmo de embarcar nessa aventura, é necessário assinar um termo assumindo sua responsabilidade frente aos acontecimentos. É um ambiente nada controlado em que há tigres, ursos, primatas e diversos outros animais selvagens. Claro que tem os guias para orientar e guiar os turistas da melhor forma possível, além de kits de primeiros socorros, porém acidentes podem acontecer.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

Outros avistamentos

Além de encontrar os orangotangos e o lagarto monitor em seu percurso pelo Parque Nacional, Gustavo também viu algumas espécies de aves, cobras e Gibão Preto, que inclusive pegou uma banana da mochila de sua amiga.

 

Impactos 

Querendo ou não, este turismo acaba causando impactos ambientais, pois há a interferência humana e, como os orangotangos acabam pegando comida dos turistas, eles podem contrair algum tipo de doença. Mas analisando todos os fatos, o impacto positivo é muito maior, como nos contou Gustavo, “é um local muito pobre que sofre uma pressão gigante para desmatar. É o lugar que foi mais desmatado do mundo, venceu a Amazônia… e é muito menor que ela, então está em uma taxa absurda de desmatamento lá. 

Fora que animal lá é tratado que nem lixo por grande parte da população, então eles estão em uma situação muito vulnerável, realmente o negócio é desesperador e esse tipo de turismo é o que mantém aquilo ali, o que mantém aquela vila. O turismo para conhecer o parque, para ver os orangotangos é o que mantém aquela vila então eu vejo como essencial.”

O que ajuda a preservar a região é esse ecoturismo pois “Quando você gera renda para a população local, se vem alguém querendo desmatar, o cara pode pensar duas vezes e falar ‘não, mas

eu  vivo disso aqui, tô de boa’, agora se o cara não ganha nada com aquilo, vem alguém e oferece uma grana para derrubar aquilo ali ele fala ‘então vai’. Então você conhecendo dessa forma, você tá fazendo parte dessa cadeia que tá mantendo a floresta de pé”, conta Gustavo.

Conhecer um animal que pode ser extinto nas próximas décadas, já que eles estão muito ameaçados de extinção, e em vida livre ainda por cima, é de uma relevância muito grande. Principalmente porque passamos a valorizar ainda mais o animal e a querer que eles estejam aqui preservados. Começamos a entender mais sobre eles e sobre as ameaças que estão enfrentando, que são muitas.

 

Foto: Gustavo Figueiroa 

 

Por fim…faria diferente

Apesar de ter gostado muito e achado uma experiência incrível, Gustavo nos contou que faria diferente…mas calma que não é um diferente ruim, é um diferente bom! Ele nos contou hoje, com certeza, aumentaria o tempo do passeio, escolhendo um pacote de até 10 dias na floresta! Imagina? 

Mas a verdade é que essa aventura não é pra todo mundo, eu mesma depois desses causos, pensei duas vezes antes de querer fazer esse tipo de turismo. Mas assim …quem sabe um dia, né? 

Para isso, precisamos, antes de ludo, lutar para a conservação dos orangotangos e evitar que eles sejam extintos.

E aí? Curtiu a história? Você já fez algum ecoturismo assim? Conta pra gente!

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

 

 

Bond da Conservação: Sylvia Earle

By | gigantes da conservação | No Comments

Você conhece as grandes personalidades da conservação? Ao longo dos anos, pudemos contar com alguns heróis que deram início a grandes ideias ou tiveram papéis importantes em determinados projetos de proteção ao meio ambiente. Seus princípios e histórias de vida são uma inspiração para nós, que formamos uma enorme corrente a favor da natureza.  

Vamos explorar a história desses gigantes aqui em nosso blog. A informação é nossa principal arma. Por meio dela, desejamos munir a população de conhecimento, inspirar cidadãos comuns e trazer o maior número de pessoas  para o “lado verde da força”.

Hoje vamos conversar sobre uma das maiores referências mundiais em vida marinha. Vamos falar sobre Sylvia Earle.

 

Foto: Bates Littlehales/National Geographic

 

Descobrindo a paixão pelo mar

Nascida no ano de 1935 em Nova Jersey, Estados Unidos, Sylvia Earle cresceu sendo uma criança bastante interessada pela natureza. Sempre com o hábito de curtir a própria companhia, desde nova adquiriu o costume de brincar e explorar a natureza, passando às vezes, um dia inteiro fora.

Aos doze anos, mudou-se para a Flórida com sua família, onde se apaixonou pelo mar. O Golfo do México era seu quintal onde podia ser parte de toda aquela imensidão azul. Procurava os pequenos animais e se encantava pelas algas que chegavam na areia. Sentia como se aquele fosse seu zoológico particular. 

Na escola, sempre foi uma aluna aplicada e no documentário “Mission Blue” (2014), Sylvia conta que: “sempre quis fazer o que os cientistas fazem”. 

Uma das primeiras figuras que encantaram Earle foi William Beebe, um naturalista e explorador, que através do livro “Half Mile Down” descreve a experiência de mergulhar 800 metros abaixo da superfície utilizando uma batisfera (uma esfera oca de aço com uma janela para observação).  Jacques Cousteau foi outro personagem chave que influenciou Sylvia a querer mergulhar e ver todo aquele mundo cheio de vida na vastidão azul. 

 

Batisfera. Foto: Wikipédia.

 

Respirando embaixo d’água

O primeiro equipamento de mergulho SCUBA, aquele em que utiliza um cilindro de ar comprimido permitindo a respiração subaquática, foi inventado por Jacques Cousteau. Essa invenção tornou o mergulho e a exploração do mar mais simples. 

Quando entrou na faculdade de biologia marinha em 1953, Sylvia teve acesso a um desses equipamentos de mergulho através de um professor. A cada mergulho, a estudante queria ficar mais tempo submersa e chegar cada vez mais fundo. Considerava o mar uma galáxia subaquática.

 

Foto: Acervo Sylvia Earle Twitter

 

Quando formada, não demorou para ingressar no mestrado na Duke University, onde se especializou em botânica, pois Sylvia acreditava que entender a vegetação era o primeiro passo para entender o ecossistema.

Iniciou seu doutorado também na universidade de Duke, estudando as algas do Golfo do México. Na universidade conheceu John Taylor com quem se casou e teve uma filha, nesse tempo deu uma pausa nos estudos.

 

Foto: Tyrone Turner—National Geographic Image Collection/Alamy

 

A primeira de muitas expedições

Em 1964 Slyvia recebeu um convite único para integrar a Expedição Internacional ao Oceano Índico. Como uma boa cientista curiosa e com ânsia de explorar o azul, ela não deixaria essa oportunidade de ouro passar, mesmo que isso significasse deixar seu marido e seus dois filhos (uma de quatro e o outro de dois anos), por seis semanas. 

A expedição contava com setenta homens e apenas Sylvia de mulher, mas isso não a intimidava. 

A expedição tinha como objetivo documentar a natureza marinha e explorar o que havia debaixo d’água em regiões ainda não visitadas. O resultado foi 7.250 kg de peixe, 90 kg de camarão e quase uma tonelada de caranguejos coletados para estudos. 

Pouco tempo após retornar, mais uma oportunidade de participar de outra expedição surgiu, dessa vez para o sudeste do Pacífico e claro que Sylvia não negou, porém isso significou o fim de seu casamento.

 

Foto: Acervo Sylvia Earle Twitter

 

Nesse mesmo ano, continuou sua tese com as algas. Coletava, registrava, catalogava. Queria entender quem vivia ali, o que eram e registrar todas aquelas que não tinham sido registradas ainda.  Em 1966 recebeu seu título de doutora.

Sua coleção de algas acabou ficando tão grande que Sylvia doou parte delas, cerca de 20 mil espécimes, para o Instituto Smithsonian Museu Nacional de História Natural de Washington, D.C.

Mais uma expedição à vista! Desta vez para as Ilhas Galápagos. Sylvia e mais 11 cientistas iriam mergulhar em águas onde ninguém havia mergulhado antes. Earle havia se tornado uma grande cientista e exploradora. Quando não estava mergulhando estava na academia.

 

Base Tektite II

Um dia, quando estava em Harvard em 1969, Sylvia viu uma chamada no quadro de avisos para passar duas semanas nas águas do caribe mergulhando nas Ilhas Virgens. O projeto de pesquisa consistia em viver na base subaquática de pesquisa, Tektite II, durante quatorze dias para mergulhar e explorar a área e os seres viventes. 

Sylvia, sem pensar duas vezes, se inscreveu para vaga e depois de muitas ponderações por parte dos contratantes, pelo fato de ser mulher, foi selecionada para liderar a equipe do projeto. Para surpresa de Sylvia, lhe surgiu uma exigência: A equipe deveria ser composta inteiramente por mulheres, para evitar a convivência entre homens e mulheres na base. Sylvia aproveitou essa  exigência como uma ótima oportunidade e liderou com maestria uma equipe composta por mais quatro mulheres.

As pesquisadoras ficavam na água de 10 a 12 horas por dia, “Eu me sentia uma criança em uma loja de doces, só que tudo era vivo”, conta Earle no documentário “Mission Blue”. Essa experiência mudou bastante a perspectiva de Sylvia em relação aos oceanos e as criaturas que nele vivem. A pesquisadora estava começando a compreender mais a fundo a dinâmica e peculiaridades ali existentes.

 

Da esquerda para direita: Ann Hartline, Alina Szmant, Peggy Lucas, Renate True, Sylvia Earle, as cientistas da Tektite II. Foto: Bettmann/CORBIS

 

Entra a cientista, sai a figura pública

Quando o projeto da base Tektite II terminou e as cientistas voltaram para a superfície, elas se tornaram uma espécie de celebridades. Saíram em um desfile pelas ruas de Chicago e receberam a chave da cidade pelo próprio prefeito. Agora estavam na mídia, mostrando que mulheres podiam ser cientistas, mergulhadoras, que podiam ocupar lugares que antes eram exclusivamente masculinos. 

Os holofotes também serviram para que Sylvia pudesse agir em defesa dos oceanos e da pesquisa, buscando conscientizar as pessoas sobre os danos que causamos a eles, além de poder mostrar ao público, por meio de filmes e livros,  um pouco sobre a diversidade marinha.

 

Traje JIM

Em 79, Sylvia teve a oportunidade de mergulhar utilizando um traje pressurizado, o traje JIM, que permitia mergulhar em grandes profundidades e voltar à superfície sem precisar passar horas em descompressão. 

Ninguém havia ainda passado de 300 metros de profundidade, mas para uma exploradora como Sylvia, não há desafios que ela não aceite. 

Descendo a 380 metros, Earle caminhou por duas horas e meia em solo submarino, descobrindo diversas criaturas que no completo escuro brilhavam e “soltavam faíscas”.

Sempre interessada em ir cada vez mais fundo, Sylvia começou a colaborar com engenheiros, planejar seus próprios submarinos e chegou até a fundar sua própria empresa.

 

Traje JIM. Foto: Phil Nuyeten /Cortesia Rolex/O Globo

 

Indo a luta

Em 1990, Sylvia foi nomeada cientista chefe da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA), onde supervisionou a pesca e as águas do litoral dos Estados Unidos. 

Foi uma grande oportunidade para Sylvia, uma vez que ao estar em um grande cargo, poderia fazer grandes mudanças, lutar pelo que acreditava. Pelo mesmo era no que acreditava.

Foi quando Sylvia se deparou com uma situação bastante incômoda. Muito do que falava como cientista, os dados de impactos ambientais e as medidas que teriam que ser tomadas para mudar a realidade, não eram bem recebidos e, muitas vezes, pediam para que ela não falasse tais coisas. Frustrada, Sylvia decidiu sair do cargo. Para a cientista, se não pudesse falar o que queria e precisava, não valia a pena ocupar aquele cargo. Estando do lado de fora, tinha a liberdade de lutar pelo que acreditava e pensava.

Ao longo de sua carreira, escreveu muitos livros, matérias para revistas como a National Geographic, ministrou diversas palestras ao redor do mundo defendendo a proteção dos oceanos, participou de diversas expedições e mergulhou por mais de sete mil horas.

Sempre lutando pela conservação, ganhou diversos prêmios como o prêmio TED (2009), conferido a personalidades que são capazes de provocar mudanças

 

Foto: James Duncan Davidson/TED

 

Com o apoio da organização TED, Sylvia fundou a organização Mission Blue, que tem como objetivo explorar, conservar e proteger os oceanos por meio da criação de áreas protegidas, chamadas de pontos de esperança. 

 

Entrevistas e filmes

Ver Sylvia falando sobre o oceano e sobre conservação é extremamente inspirador. A luta, perseverança e esperança nos dão força para nos juntarmos à causa.

Deixo aqui algumas entrevistas e filmes com Sylvia Earle que valem a pena ver.

Entrevista para a National Geographic: aqui 

Entrevista para a Rolex: aqui

Entrevista para O Globo: aqui

Mission Blue Organização: aqui

Filme Mission Blue (Netflix): aqui

Filme Seaspiracy (Netflix): aqui

Filme Plastic Ocean (Netflix): aqui

 

Texto por: Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

 

 

A trajetória por trás das lentes: a vida e carreira de João Paulo Krajewski e Roberta Bonaldo

By | gigantes da conservação, Não categorizado | No Comments

Quem nunca quis ser documentarista ou cinegrafista ao assistir um documentário de vida selvagem, que atire a primeira pedra! Estar em lugares exuberantes, com a mais diversa vida ao redor, e poder registar para tudo isso, parece sonho, mas essa é a realidade de João Paulo Krajewski e sua esposa Roberta Bonaldo.

Admirados pelo trabalho dos documentaristas, a GreenBond foi atrás do casal para uma conversa sobre a vida, trajetória e os bastidores da profissão.

 

Foto: Edson Faria Junior

Amor a primeira natureza

Nascido em Campinas, João Paulo sempre foi apaixonado pela natureza. Aos quatro anos já adorava ver programas de TV e documentários sobre o mundo selvagem. “Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer eu respondia ‘eu quero trabalhar com o  Jacques Cousteau’”, conta João. 

 

Foto: Roberta Bonaldo

 

A paixão e admiração pela biologia e pelo mar já eram evidentes e João ainda contava com o apoio e incentivo de seus pais: “eu falava para minha mãe que gostava de bichos e ela, professora de Geografia, falava para as colegas da Biologia, que me mandavam livros. Eu criancinha tinha aqueles livros mostrando abelhas, células haplóides, diplóides, um monte de coisa de zoologia e genética. Eu ficava viajando, era louco por isso”, relembra João.

Cada vez ficava mais fissurado por estar na natureza, ir atrás dos bichos, conhecer, assistir documentários. Aos 15/16 anos João começou a se interessar mais pela fotografia e andar para cima e para baixo com uma camerazinha. Sua forma de curtir a natureza passou a ser mais pela contemplação: “hoje minha grande paixão pela natureza, mesmo passando por calor, frio, algum incômodo, é quando eu estou parado ali curtindo; observar o mundo natural me fascina”, diz JP.

Roberta também cresceu no interior de São Paulo e seu maior contato com a natureza era no jardim da casa de seus pais. A área verde limitada não impediu Roberta de se apaixonar pela natureza, sendo sempre uma criança curiosa que adorava insetos e desenhos sobre a vida animal.

“Uma das minhas lembranças mais antigas desse encantamento com a biologia foi um desenho animado que eu assisti, que mostrava que as lagartas viravam borboletas. Eu fiquei em choque! Como assim, lagartas e borboletas eram o mesmo bicho?! Então fui no jardim da casa dos meus pais e peguei todas as lagartas que encontrei porque eu queria vê-las virando borboleta. Fiquei maravilhada com aquilo! Depois, fui ao meu guarda-roupas  e enchi uma das gavetas de folhas, já que eu vi no desenho que era o que elas comiam. Depois, coloquei as lagartas na gaveta e fiquei esperando, até o dia em que minha mãe foi guardar minhas roupas, abriu a gaveta e quase teve um treco!” conta Roberta, rindo.

 

Foto: João Paulo Krajewski

 

A vida acadêmica e os encontros

A paixão pela área ambiental levou João e Roberta a cursarem Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde se conheceram. E é claro que meu espírito de Maria Fifi quis saber quando foi que eles começaram a se relacionar, então  perguntei pois não sou de pedra, né?

Eis o que João e Roberta nos contaram sobre a primeira semana de aula deles na faculdade: “Na sexta-feira chega ela, sentou do meu lado e eu pensei ‘nossa menina nova e tal, sentou do meu lado’. Já fiquei super interessado, batendo papo e fui pra casa feliz da vida. Tinha feito amizade nova, conversei a manhã inteira com ela. Chegou segunda-feira eu, de novo na Unicamp, vi a Roberta. Já fui conversar, mas cheguei lá e ela não sabia quem eu era, não se lembrava de mim.” conta João enquanto Roberta cai na risada. “Fui falar com ela, ela olhou meio assim…e perguntou ‘Te conheço?’. Fiquei ‘nossa, cara, a gente conversou sexta-feira a manhã inteira!’ esse negócio de amor à primeira vista é uma baita mentira”, completa João.

Logo em seguida, Roberta se defende: “Em minha defesa, era meu primeiro dia de aula. Eu tinha conhecido muita gente, estava atordoada, era muita informação, estava perdida…” Mas um mês depois depois desse início “traumatizante”, de acordo com JP, eles já estavam namorando, muito felizes e desde então não se separaram mais.

 

 

Quando iniciou a graduação, Roberta pensou que estudaria insetos, mas começou a mergulhar com João e se encantou pela biologia marinha. Ainda na graduação, fez pesquisa de Iniciação Científica sob orientação do Prof. Ivan Sazima sobre o comportamento alimentar do peixe borboleta listrado (Chaetodon striatus) em Ilhabela.

Formados, João e Roberta fizeram Mestrado em ecologia e comportamento de peixes marinhos em Fernando de Noronha, orientados pelo Professor Ivan Sazima. João também fez o doutorado na mesma instituição, sob orientação da Prof Fosca Leite. Já Roberta fez seu doutorado na Universidade James Cook, na Austrália. sob a orientação do Prof. David Bellwood. Sua pesquisa foi sobre como os peixes-papagaios influenciam comunidades de algas e corais em recifes coralíneos.

 

Foto: Stacey Emiliou/Roberta Bonaldo em Fernando de Noronha

 

Das telinhas das câmeras para o mundo

Uma das primeiras experiências profissionais do casal para a televisão foi durante o mestrado em Fernando de Noronha. Nessa época, uma equipe do programa Terra da Gente, da EPTV Campinas, uma afiliada da Globo, foi gravar as pesquisas feitas pelo grupo do Professor Sazima, do qual João e Roberta faziam parte. “As histórias eram incríveis, peixes que mudam de cor, um que segue o outro, peixes que viram de ponta cabeça para pedir limpeza para o outro… tínhamos histórias muito bonitas”, conta João. As imagens submarinas foram  feitas por JP e Roberta, já que possuíam conhecimento de biologia, mergulho e fotografia.

A partir daí, João viu que o sonho de fazer imagens para a TV era possível. Quando Roberta foi para a Austrália, João entrou em contato com a equipe da EPTV para gravarem um Globo Repórter no país. A associação com a EPTV foi fundamental para conseguirem realizar mais trabalhos até que, em 2009, João recebeu o convite para apresentar o Domingão Aventura, um quadro do Domingão do Faustão. As imagens mostradas no programa foram do Dragão de Komodo (Varanus komodoensis) e a aceitação foi tão grande que, logo depois, João foi contratado para produzir material e apresentar o quadro.

 

Foto: Yano Sakul/Roberta Bonaldo Instagram

 

“Desse momento em diante, foi viagem atrás de viagem, ganhando conhecimento, aprendendo… foi fantástico, uma escola sem igual”, fala JP.

Em 2015 outro momento sem igual: o primeiro trabalho com a BBC. João nos conta que seu primeiro contato com a produtora foi um um festival de filmes na Inglaterra, onde contou algumas de suas histórias em Fernando de Noronha. Depois disso, ele foi chamado para trabalhar com equipe do grande diretor Miles Barton.

“A gente foi para Fernando de Noronha para gravar uma história que depois até virou trailer da série Planeta Azul II, que é a sequência de uma moreia que salta para fora da água para caçar caranguejos. Foi a primeira vez que trabalhei com a BBC; como consultor e guia da equipe. Eles fizeram a maioria das imagens, mas acabei contribuindo com algumas também. Isso foi o sonho do sonho do sonho… Um trabalho que eu amava ver, que quando eu era moleque eu achava que era coisa de outro planeta, que eu jamais chegaria lá. (…) Eu nunca pensei que conseguiria fazer qualquer imagem assim, achava que era uma realidade distante da minha, da Inglaterra. De repente, eu estava vendo imagens minhas narradas pelo Sir David Attenborough, que para mim é a figura mais querida e impressionante da minha área, que mais me inspira no mundo”, conta João.

 

Foto: Roberta Bonaldo/Fernando de Noronha

 

Figuras importantes na jornada

Durante nossa conversa, Roberta e João citaram várias pessoas queridas e que foram peças importantes na trajetória.

Roberta nos conta que seu lado de divulgadora científica foi bastante aflorado porque seu orientador, Prof. Ivan Sazima, sempre fez questão de incentivar a publicação de materiais de divulgação científica, além dos artigos científicos. Desta forma, os resultados do trabalho realizado poderia alcançar mais pessoas. Ivan acredita que tão importante quanto publicar é divulgar a ciência. João também cita o Professor Sazima como uma peça fundamental na sua formação, já que com ele desenvolveu muitas das suas habilidades de observação de comportamento animal e história natural.

Outra figura bastante importante foi o produtor Miles Barton. Roberta conta que durante as gravações em Noronha, sempre o observava trabalhando: “no campo, o Miles agia o de um cientista, um naturalista mesmo. Ele ia com um caderninho de campo, anotava, observava, era super criterioso tanto com a parte estética quanto com a parte do conteúdo, então eu enxerguei muito do que eu fazia na atividade dele.”

João conta que, na Inglaterra, Barton levou o casal para conhecer o prédio da BBC: “Foi um sonho! Miles mostrou várias salas para nós, inclusive em que o Attenborough gravou narração de muitos filmes que tenho aqui em casa e já assisti muitas dez vezes… Os nomes e os posters de todas as produções da BBC. E Miles sempre nos fez sentir um pedaço daquilo (…). Foi uma figura que mostrou ‘João você é parte disso, a gente tem um respeito por vocês’ e foi incrível.”.

O Terra da Gente não ficou de fora das citações: “o Terra da gente mostrou que eu era capaz de fazer aquilo (gravar imagens para a televisão).”, diz João.

O casal também não economizou agradecimentos à equipe do Domingão do Faustão. João trabalhou para o Domingão Aventura durante 11 anos e Roberta durante 5 anos como pesquisadora, produtora, cinegrafista e em 2018 iniciou como apresentadora do quadro.

 

Foto: João Paulo Krajewski Instagram

 

Todas essas pessoas na trajetória de João Paulo e Roberta foram muito importantes para eles se reconhecerem como profissionais, para mostrar que eles estavam no páreo e tinham capacidade de ir longe. E foram!

 

Produções a todo vapor

Os trabalhos e as oportunidades não param de surgir na vida de João e Roberta. JP já realizou várias produções com a BBC, Netflix, Animal Planet, ……. assim como Roberta que também participou na parte de making-of, produção e checagem de conteúdo científico. 

 

Algumas das produções são: 

  • Vida em Cores com David Attenborough (2021)

A série produzida pela Humble Bee Films para a BBC e Netflix conta com três episódios em que Sir David Attenborough explora como os animais utilizam suas cores. No Brasil, a série está em exibição na Netflix. Clique aqui para assistir na Netflix. Clique aqui para assistir no site da BBC One.

 

  • Vida no Azul (2020)

Série de 12 episódios produzida pela Natural History Brazil sobre a vida marinha ao redor do mundo. Os episódios mostram as particularidades de diferentes regiões dos oceanos. Em exibição no Animal Planet. Clique aqui para a página da série.

 

Foto: Roberta Bonaldo/João Paulo Instagram

 

  • Florestas Animais (2016)

Série de cinco episódios, produzida por João Paulo Krajewski, que explora as diferenças das principais regiões de florestas tropicais do mundo. A série atualmente está disponível no canal do YouTube de João Paulo Krajewski. Clique aqui para ver os episódios.

 

  • Primatas (2020)

Série produzida pela BBC de três episódios sobre primatas. Clique aqui para ir para a página oficial da série.

 

  • Sete Mundos, Um Planeta

Narrada por Sir David Attenborough e produzida pela BBC, a série mostra a enorme diversidade de vida e as peculiaridades de cada continente. Clique aqui para o trailer da serie. Clique aqui para ir para a página da série.

 

Foto: João Paulo Krajewski

 

  • Planeta Azul II/ Blue Planet II (2018)

Série de sete episódios produzida pela BBC sobre a vida marinha. João trabalhou como consultor científico e gravou algumas imagens de caranguejos, moreias e polvos em Fernando de Noronha. Clique aqui para ver a gravação.

 

  • Grandes rios da Terra (2018)

Série da BBC sobre os rios Amazonas, Nilo e Mississipi, em exibição no Animal Planet. Clique aqui para a página da série.

 

Foto: Acervo João Paulo Krajewski

 

  • Rotadores de Noronha (2016)

O documentário mostra a vida dos golfinhos rotadores de Fernando de Noronha e o trabalho de conservação realizado pelo Projeto Golfinho Rotador. Clique aqui para assistir ao documentário.

 

Um giro pelo mundo

Para que todas essas produções fossem feitas, João e Roberta passaram por muitas cidades e países diferentes. Dos mais quentes aos mais frios, João já visitou mais de 60 países enquanto Roberta está na faixa dos 40. E olha que esse número só não aumentou devido à pandemia.

 

Acervo João Paulo Krajewski

 

Com tantas experiências e lugares diferentes, fica até difícil escolher qual o país que mais gostou e qual o momento mais emocionante, mas João logo se prestou a responder: “Têm dois países que eu acho incríveis no mundo, Brasil e Indonésia. Eu acho que são dois países mais fantásticos porque é uma questão de gosto pessoal: eu gosto de floresta tropical. O Brasil tem a Mata Atlântica e a Amazônia. A Amazônia é a floresta mais impressionante, mais imponente que existe no mundo. Os rios da Amazônia deixam qualquer coisa do mundo no chinelo, não tem comparação. Você navegar num rio da Amazônia, no meio da floresta, você se sente um nada ali. Fora a fauna que é incrível, é maravilhosa”, conta João.

“A Mata Atlântica, em termos cênicos, é a floresta mais bonita do mundo. Parece que um jardineiro passou colocando cada bromélia e orquídea em um lugar especial… e os riachos são todos verdadeiras obras de arte. Eu costumo brincar dizendo quando vejo uma coisa bonita  “nossa, isso aí é mais bonito que riacho da Mata Atlântica”, completa João.

 

Foto: João Paulo Krajewski/Amazônia durante a noite

 

“Na Indonésia você tem a junção de duas coisas incríveis que são as florestas…na verdade várias coisas, mas a floresta tropical como a nossa aqui, mas com espécies totalmente diferentes, como as aves do paraíso, calaus, orangotango… E a Indonésia tem ainda os recifes de corais mais ricos do mundo, o que para um biólogo marinho, como eu, é fascinante. Então, você tem um país como essas duas coisas, mais de 17 mil ilhas. Fora isso, têm vulcões, o que para nós é muito diferente. É fascinante!”. Conta João.

¨São tantos atrativos e espécies endêmicas… e a Indonésia fez parte também de uma história que eu sou fascinado, que é a do explorador Alfred Russell Wallace, que ficou anos na região. A Indonésia, inclusive, foi uma das grandes inspirações para a descoberta de Wallace, que chegou à mesma conclusão de Darwin, independentemente, sobre a evolução. É um país fascinante e as pessoas são incríveis. A gente sempre se diverte muito lá”, conta João.

“São países em que a gente se sente em casa de verdade: o Brasil, obviamente, e a Indonésia. A gente tem uma admiração pela cultura e pelo jeito do povo. As pessoas são muito queridas. Isso nos lugares em que a gente foi, porque como disse o João, são 17 mil ilhas e fica difícil generalizar… mas é muito legal”, acrescenta Roberta.

Roberta ainda inclui na lista de países preferidos a Noruega. Quando foi convidada para visitar a Noruega, Roberta achou que não gostaria da viagem, por ser extremamente friorenta. Mergulhar nas águas geladas seria um pesadelo, mas João insistiu pois eles iriam filmar orcas. E foi uma grande surpresa: “Eu pirei, aurora boreal, foi uma experiência fantástica. Tenho um carinho muito especial pelas viagens que eu fiz pra Noruega.”, conta Roberta.

 

Foto: João Paulo Krajewski/Aurora Boreal na Noruega

 

O casal não abre mão de admirar o Brasil e contam que, após começarem a viajar para o exterior, perceberam ainda mais o quanto o Brasil é maravilhoso e diverso. Foi comparando com o de fora, que perceberam que o que nós temos é inigualável.

 

Momentos emocionantes

Se já não é fácil escolher o país que mais gostou, imagina escolher o momento que mais os emocionou. Chamaremos este momento de “eu poderia morrer agora e morreria feliz”.

Desta vez foi a vez de Roberta responder com prontidão: “Foi uma viagem que a gente fez para as Ilhas Salomão (…) a gente ficou numa pousada que era só nós dois de hóspedes. Em outros lugares, geralmente você vai mergulhar e têm outros barcos, outros turistas. Lá não, era só a gente, então era aquela sensação de lugar inexplorado. Eu lembro que nós dois mergulhamos com câmera. A gente caiu na água e logo nos primeiros segundos de mergulho vimos tubarão, baleia piloto, peixes maravilhosa e um recife lindo… Eu lembro que em um dado momento que eu baixei a câmera e olhei para o João, que estava com a câmera baixa também, e a gente ficou assistindo a aquele espetáculo… era tão bonito que eu pensei ‘gente, se eu morrer aqui, já está bom’… era tão bonito, que experiência maravilhosa”, conta Roberta. “E essa sensação de vastidão e de isolamento… Eu já tinha visto recifes bonitos em outros lugares, mas assim, de ser só a gente mais o piloteiro, que era uma pessoa que morava nas ilhas, foi muito especial, foi muito comovente mesmo”, completa.

 

Acervo Roberta Bonaldo/Ilhas Salomão

 

João cita a primeira vez que foi a Uganda ver os gorilas-da-montanha, quando teve alguns momentos muito marcantes. Em um deles, João acordou às 5:00 da manhã e deu de cara com um grupo de gorilas nos arredores do hotel, a menos de 200m de seu quarto: “Eu fui bem devagar e fiquei de longe, olhando. Foi um momento em que eu fiquei sozinho com os gorilas, era a mesma família que eu tinha visitado, em um tour, no dia anterior, com 19 gorilas (…) o bicho é um gigante gentil super dócil, e eu vendo sozinho aquilo foi algo comovente(…). Anos depois, quando fui a Ruanda para ver os gorilas-das-montanhas novamente, vi a maior família de gorilas que se podia visitar, na época com 32 gorilas, incluindo dois gêmeos, o que é raríssimo. E o mais incrível é que ambos os gêmeos sobreviveram, o que é mais raro ainda (…) esse grupo tinha também três silverbacks, que são os grandes machos. Teve um momento em que a gente foi num riacho e ao lado dele havia um barranco íngrime… A gente não percebeu porque tava no meio da mata, mas o grupo de gorilas havia se dividido: metade tinha ficado pra trás de nós e a outra metade estava à nossa frente.  Estávamos no meio do caminho! O jeito foi nos espremermos contra o barranco para permitir a passagem dos gorilas que estavam atrás de nós. Os bichos passaram literalmente encostando na gente, uns 6, 7 gorilas, inclusive um dos machos daqueles . Eu pus a câmera contra o peito para dar espaço. Foi incrível”, conta JP.

 

Foto: João Paulo Krajewski/Gorilas em Uganda

 

Momentos emocionantes definitivamente não faltam na vida desses dois, daria para escrever um livro!

 

Perrengue chique

Pra mim, os perrengues desses dois enquadram em perrengues chique, pois acontecem enquanto eles estão fazendo trabalhos fantásticos em lugares incríveis.

João nos contou de quando estavam na Amazônia e passaram por uma tempestade de raios no meio de um rio: “Era um raio por segundo, a gente não tinha para onde ir. Navegamos em direção à pousada e uma árvore estourou do nosso lado. Uma tempestade que veio do nada, uma mega tempestade. Batia água por todo lado e raio estourando, era um por segundo, não estou exagerando”, conta João.

 

Foto: João Paulo Krajewski/Amazônia

 

“No Pantanal esse ano a gente estava filmando e um enxame de abelhas pousou do nosso lado. Foi muito tenso. Elas desceram com a rainha a uns 5 metros da gente.  A gente ficou em silêncio e saiu do local…”, diz JP.

Por sempre respeitarem os animais, o espaço deles e sempre agirem com cautela durante seus trabalhos, Roberta e João nunca tiveram grandes problemas em campo. Ainda bem, né?

 

O caminho é longo, mas a recompensa é grande

Não foi de um dia para o outro que JP e Roberta se tornaram os profissionais que são hoje; eles precisaram de muito esforço, dedicação, humildade de reconhecer que sempre precisam melhorar, coragem de ir atrás dos sonhos e muita paciência.

As amizades que fizeram pelo caminho e as pessoas que conheceram e que contribuíram de alguma forma também foram de extrema importância. O respeito pelos colegas e pelo trabalho dos outros profissionais com certeza é uma chave que abre portas para uma grande rede de compartilhamento de informação e confiança.

 

Acervo Roberta Bonaldo Instagram

 

Fazendo parte do #Bond!

Nesse ano, João Paulo e Roberta começaram a fazer parte do nosso Bond. Perguntamos a eles sobre o que estão achando de ter uma empresa especializada em comunicação e marketing dando apoio na divulgação do trabalho que realizam.

“Eu fico até me sentindo culpado por antes, porque o trabalho que eu faço é divulgar natureza, é fazer imagens. E claro, eu trabalho para documentários e isso acaba saindo na TV (…) mas eu tenho muito material guardado, com muitas histórias. Quando converso com as pessoas, elas querem saber, se encantam e aprendem… e eu percebi que muito do que eu tinha estava guardado nos meus arquivos… Eu me senti até egoísta, sabe?… E vocês (da GreenBond) falando que queriam ver, aprender, saber, ver os bichos, as histórias… aí pensei ‘puxa, fazer isso de uma maneira profissional, legal, acompanhada por gente boa, que vai colocar isso de uma maneira bonita, você está mandando uma mensagem legal para as pessoas, que é aquilo que você acredita, está deixando de ser egoísta, de prender aquilo só para você e criando uma rede de pessoas que, espero, se empolgue com isso e venha a fazer isso no futuro. Acho que hoje é um sentimento de mais do que estar na rede social ou as pessoas estarem só conhecendo meu trabalho, você de repente está criando algo maior, instigando e influenciando pessoas a seguirem um caminho parecido”, conta João.

“Hoje é fundamental a gente dividir um pouco das nossas experiências, do nosso conhecimento. É uma maneira de agradecer todo mundo. Eu trabalho para o público, seja apresentando documentários, escrevendo, fazendo imagens… E hoje na internet é, na hora que a gente publica, o mundo inteiro pode ver… e espero com isso instigar, estimular muita gente a gostar de natureza, a respeitar e conhecer um pouquinho mais da natureza”, relata João.

 

Foto: Arlaine Francisco/Roberta Bonaldo Instagram

 

Roberta ainda conta que com o apoio da GreenBond já percebeu mudanças: “O pessoal tem se engajado mais e a comunicação com as pessoas está mais frequente e direta… Então está bem legal.”, conta Roberta.

O apoio da GreenBond tem sido importante na troca de conhecimentos, no maior contato com o público e no gerenciamento de redes, principalmente quando o casal está em suas viagens. Esperamos que esta parceria seja proveitosa e duradoura!

 

Nossa admiração por João e Roberta, que já era enorme, só aumentou! Desejamos muito sucesso pra esse casal incrível e, nós aqui, aguardamos ansiosamente pelos lançamentos dos próximos trabalhos!

 

Quer conhecer mais sobre a trajetória profissional do João Paulo Krajewski e da Roberta Bonaldo?

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Texto por Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

Zoolimpíadas: as Olimpíadas Animais

By | GreenBond | No Comments

Envolvida pelo espírito esportivo, a equipe da Greenbond entrou no ritmo das Olimpíadas e trouxe um blog quentinho inspirado por ela. Durante a semana, vimos posts de páginas que somos fãs (@waita.ong, @projetotatucanastra, @conservamoscerrado e @batepapocomnetuno), imaginando como seriam os jogos olímpicos com animais. E é claro que entramos nessa onda: vem conferir essas Olimpíadas que só tem fera!

 

Ginástica rítmica

A ginástica rítmica é uma modalidade que permite uma grande expressividade artística, combinando movimentos e capacidade física. E isso é o que não falta nesses competidores.

Em meio à Mata Atlântica, encontra-se uma espécie digna de ouro. O tangará (Chiroxiphia caudata) é um pássaro artista, que não poupa esforços para impressionar a fêmea. O macho, de cores chamativas, apresenta uma dança em conjunto na hora da conquista. Os machos alinham-se, fazendo um breve voo na frente da fêmea e indo em seguida para o final da fila. No fim do espetáculo, o macho-alfa faz um solo e, se aprovado, copula com a fêmea.

E se engana quem pensa que não é fruto de esforço: foram observados machos performando para outros, o que acredita-se que seja um ensaio antes de encarar as exigentes fêmeas. Você pode conferir essa coreografia nesse vídeo ou no documentário Our Planet da Netflix.

BBC News Brasil – A incrível dança do tangará 

 

Tangará. Foto: Leonardo Merçon – Biofaces

 

Outra performática do reino animal é a aranha-pavão australiana do gênero Maratus. Com cores chamativas, o macho apresenta uma dança cheia de floreios para a fêmea. Pernas levantadas, pulos, exibição de cores, são todas estratégias. Mas não só de conquista, estas táticas também são de sobrevivência. Mais exigentes que os jurados das Olimpíadas, é comum que as fêmeas insatisfeitas, ataquem os machos e até os matem. Não só antes, mas também depois da cópula. Esse espetáculo você pode conferir aqui.

Spider Dances For His Life!! | Life Story | BBC 

 

Aranha-pavão. Foto: Jürgen Otto – Creative Commons

 

A lesma-leopardo (Limax maximus) também tem seu próprio ritual único. Quando preparada para acasalar, a lesma deixa um rastro que pode ser reconhecido por outra que esteja no mesmo estado. Quando se encontram, essas lesmas rastejam para um local mais alto, como uma pedra ou rocha. Lá, elas se entrelaçam por horas, criando uma corda de muco. Por ela, elas se penduram, ainda entrelaçadas, onde finalmente ocorre a troca de material genético. Essa performance, estranhamente graciosa, você pode conferir aqui.

BBC Who Knew Slugs Could Be So Romantic

 

Lesmas-leopardo. Foto: Ken Griffiths – Canva

 

Escalada

A escalada, pela primeira vez esse ano nas Olimpíadas, já é o esporte favorito de alguns bichinhos. Um dos mais emblemáticos exemplos, é o íbex (Capra ibex), uma cabra silvestre europeia. Esses animais são exímios escaladores, com exemplos de subidas em paredões verticais de praticamente 90° de inclinação! Dá pra imaginar?

 

Íbex. Foto: R7

 

Já o leopardo (Panthera pardus), pode não ter cara de ser um escalador, mas é. Esse animal é frequentemente encontrado em árvores, e o motivo disso é a competição. Os leopardos dividem o ambiente com leões, hienas e cachorros-selvagens e, para não disputar a caça, se abrigam nas árvores. A nossa onça-pintada também é uma excelente escaladora, mas por ser o predador de topo em seu habitat, não há necessidade de ser tão ágil quanto o leopardo e, por isso, levaria a prata.

Nosso último competidor, nem perto de ser o mais veloz, é o bicho-preguiça, um animal lento de metabolismo baixo. Mas o que falta em agilidade, compensa em resistência. As preguiças brasileiras passam a maior parte da sua vida escalando árvores, descendo apenas uma vez por semana para se aliviar. Podem descer também em busca de alimento ou parceiros, mas com toda a proteção que as árvores oferecem, se torna um hábito incomum.

 

Halterofilismo

O halterofilismo, levantamento de peso, é uma modalidade disputadíssima no reino animal. Mas o Brasil tem um favorito na categoria: a sucuri (Eunectes sp.). Essa gigante que normalmente chega até os 5 m de comprimento e aos 100 kg, não é peçonhenta. Isso significa que ela usa de outra estratégia para caçar, a constrição. A presa é envolta por esse corpo maciço e apertada até morrer. Apesar de normalmente se alimentar de presas menores, possui força suficiente para predar grandes animais, como a onça-pintada.

 

Sucuri-verde. Foto: Edson Moroni – Biofaces

 

No continente vizinho, temos o elefante-africano (Loxodonta africana). Esse gigante possui mais 40.000 músculos na tromba! Isso significa que, só em sua tromba, já é capaz de carregar cerca de 200 kg, um competidor de peso.

Representando os Estados Unidos, a águia-careca (Haliaeetus leucocephalus), animal símbolo do país, é uma das maiores do mundo, com peso médio de 6kg. Essa ave pode não conseguir carregar tanto peso quanto o elefante mas, se comparado ao seu peso corporal, pode carregar mais que o próprio peso, sendo uma poderosa caçadora.

 

Boxe

Tradicional nos jogos olímpicos, os golpes do boxe também fazem parte da vida dos nossos competidores. A tamarutaca (Odontodactylus scyllarus), também conhecida como lagosta-boxeadora, é um invertebrado marinho que vive próximo às costas de mares tropicais e subtropicais, inclusive do Brasil. Esses animais são excêntricos desde as suas cores espalhafatosas até seu golpe singular.

A tamarutaca possui dois apêndices dianteiros, capazes de proferir um golpe com aceleração igual a do disparo de uma arma de calibre 22. Tudo isso em uma velocidade muito menor que um milésimo de segundo! Para ter alguma perspectiva, se um humano fosse capaz de acelerar os braços a um décimo da velocidade que a tamarutaca é capaz, seria possível lançar uma bola de baseball na órbita da Terra. Chocante, né?

 

Tamarutaca. Foto: BBC News Brasil

 

A lebre-europeia (Lepus europaeus), ou lebre-marrom, é uma conhecida boxeadora no Reino Unido, sendo inspiração da Lebre de Março, personagem de Alice no País das Maravilhas. Durante o seu período de reprodução, as lebres são vistas lutando não só com os punhos, mas também dando chutes – mais próximo do kickboxing que do boxe. Essas lutas se tratam de fêmeas tentando afastar machos insistentes. Quando importunadas o suficiente elas se voltam contra eles e os atacam, e como costumam ser maiores, não leva muito tempo para desistirem.

Os cangurus do gênero Macropus, nativos da Austrália, são conhecidos boxeadores. Os machos costumam lutar entre si na disputa por fêmeas. Não só com socos, os seus potentes chutes podem quebrar ossos e até matar seu adversário. Mas o mais bizarro sobre marsupiais gigantes boxeando? Nos anos 1930, as lutas de boxe entre cangurus e pessoas eram normais e até famosas! É possível achar vídeos com essas cenas pavorosas.

 

Atletismo

Em uma modalidade como o atletismo, não poderiam faltar os tradicionais animais mais rápidos do mundo. O guepardo (Acinonyx jubatus), nativo da África e Ásia, é sempre lembrado e não é por pouco. O mais veloz mamífero terrestre, alcançando 120 km/h. Isso é equivalente a 16 vezes seu próprio tamanho por segundo!

No ar, temos o falcão-peregrino (Falco peregrinus), encontrado em todos os continentes. Ele atinge uma velocidade ainda maior que a do guepardo: mais de 300 km/h. Uma corrida acirrada com um carro de Fórmula 1. Porém, isso só ocorre em um movimento durante a caça, quando o falcão mergulha para capturar a presa.

 

Falcão-peregrino. Foto: Aline Patricia Horikawa – Biofaces

 

No Brasil, temos um ligeirinho para nos representar também. O  morcego-sem-rabo-brasileiro (Tadarida brasiliensis) é capaz de atingir uma velocidade de 160 km/h em voos horizontais. Isso quer dizer que, em uma competição que não fosse um mergulho, esse morcego poderia levar o ouro. Vai Brasil!

 

Salto em distância

A rãzinha-saltadora (Pseudopaludicola saltica) é um anfíbio brasileiro de apenas 1,5 cm. Apesar de seu pequeno tamanho, sua potência é enorme: é capaz de saltar até 1,5 m. Isso é igual a 100 vezes o seu tamanho!

Não suficiente, a cigarrinha-da-espuma (Philaenus spumarius) consegue saltar uma distância ainda maior, cerca de 400 vezes o próprio tamanho. Esses animaizinhos originários da Europa possuem um tamanho de milímetros, mas se uma pessoa adulta tivesse essa capacidade, a distância em apenas um pulo seria cerca de 700 m.

Outro forte competidor é o esquilo-voador da família Sciuridae, predominante na Ásia. Esses animais possuem uma membrana lateral que os ajudam a planar durante o salto. Eles costumam planar por cerca de 20 m, mas em árvores altas podem chegar aos 90. Impressionante, não é? Pra voar mais longe que esses esquilos só mesmo nossa fadinha, Rayssa Leal.

 

Petaurista alborufus. Foto: Will Burrard-Lucas – Science Magazine

 

Essa foi nossa seleção de atletas de hoje. Qualquer oportunidade que aparece é sempre chance de nos fascinar pelo que a natureza é capaz e valorizar tudo que ainda temos a conhecer sobre ela. E você, sabe algum animal que arrasaria em uma modalidade olímpica? Conta pra gente!

 

Texto por Lidiane Nishimoto

Revisado por Fernanda Sá

Bond da Conservação: Alan Rabinowitz

By | Personagens da conservação | No Comments

Geralmente começamos o texto deste quadro de “Personagens da Conservação” com nossa introdução base e desenvolvemos o restante com a trajetória do profissional e seus feitos, mas se vocês leitores me permitirem, hoje gostaria de iniciar de uma forma diferente. 

Eu confesso que quando me pediram para escrever sobre o Alan eu não o conhecia. Não sabia o que tinha feito, apenas que trabalhava com felinos. Pois bem, nas minhas buscas de material para o Blog, me deparo com uma coluna do ((o))eco em que o biólogo Fernando Fernandez escreve sobre um podcast que ouviu do “The Moth” em que Alan Rabinowitz conta sua história. Logo pensei “nada melhor para conhecer a história de alguém do que ouvi-la da própria fonte”. 

E lá vou eu ouvir os 18 minutos de uma história intitulada “Man and Beast” (Homem e Fera). Eu não sou de emocionar, mas fiquei com lágrimas nos olhos do início ao fim. 

Desta forma, é assim que iniciaremos este quadro, irei contá-los esta história, e  para quem entende inglês não deixe de ouvi-la pois é fantástica. Link do podcast: clique aqui. 

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

Podcast Man and Beast

A infância

Nossa história começa em 1958 com um menino de 5 anos visitando o Zoológico do Bronx, NY. O pequeno Alan vê uma velha onça fêmea em sua jaula e se pergunta o que ela fez para estar naquele local. Então se inclina um pouco e começa a sussurrar algo para a onça, mas seu pai logo se aproxima e pergunta o que ele está fazendo.

Alan iria explicar, mas sua boca trava, bem como ele já imaginava  que iria acontecer pois, “tudo na minha infância naquela época era caracterizado pela minha incapacidade de falar”. Desde criancinha Alan sofria de uma gagueira severa, mas não uma gagueira de repetição de sílabas, e sim um completo bloqueio de fluxo de ar que ao tentar falar provocava grandes espasmos.

Nesta época ninguém sabia o que fazer. Havia poucos estudos sobre a gagueira e não havia internet ou computadores para facilitar as pesquisas como temos hoje. Na escola as coisas eram ainda mais complicadas. A solução do sistema de ensino foi colocar Alan na sala de alunos com distúrbios, e apesar dos protestos de seus pais, a escola alegava que essa era única saída, uma vez que toda vez que tentava falar incomodava a todos.

 

 

A grande descoberta

“Eu passei toda minha infância me perguntando porque os adultos não podiam ver dentro de mim, porque eles não podiam ver que eu era normal e que todas as palavras estavam dentro de mim e que elas apenas não saiam.”…“Felizmente desde novo aprendi o que muitos gagos aprendem em algum momento: você pode fazer pelo menos duas coisas sem gaguejar. Uma delas é cantar. A outra é que você pode falar com os animais.” Afirmou Alan.

Todos os dias ao voltar da aula, que as outras crianças chamavam de “a aula dos retardados”, Alan ia direto para seu quarto e entrava em seu closet. Sentava-se no  cantinho mais escuro, fechava a porta e levava consigo seus animais de estimação: hamster, gerbil, tartaruga, um camaleão e uma cobra de jardim.

Então conversava com seus pets, falava fluentemente com eles. Falava suas esperanças, seus sonhos, como as pessoas eram estúpidas por acharem que ele era estúpido. “E os animais ouviam, eles sentiam. E eu percebi que eles sentiam pois eles eram iguais a mim. Os animais têm sentimentos e também tentam transmitir coisas para nós, mas não tem uma voz humana então as pessoas os ignoram, os entendem errado, os machucam e às vezes os matam.” Alan conta. “Eu prometi aos animais quando era jovem que se eu algum dia encontrasse a minha voz, eu tentaria ser a voz deles.” 

Alan vivia em dois mundos: no mundo em que ele se considerava ‘normal’, onde ele conseguia falar com os animais sem dificuldades e no mundo dos seres humanos, onde não conseguia. Seus pais tentaram de tudo, várias terapias, remédios, psicólogos, mas nada funcionava.

 

A juventude

Passou por todas as fases da escola até a faculdade e no caminho foi lidando com a gagueira por meio de isolamento, não conversando, evitando situações e pessoas. Era um excelente aluno e bom nos esportes, inclusive fazendo parte dos times de luta e de boxe, mas não fazia por gosto e sim para aliviar a raiva e frustração que vivia.

“Na época que era veterano na faculdade, eu nunca tinha tido um encontro com uma garota, nunca tinha beijado uma garota, exceto minha mãe, e nunca tinha falado uma frase completamente fluente em voz alta para outro ser humano.” Conta Alan.

 

Alan Rabinowitz, Natural World Hero - credit: Steve Winter

Alan Rabinowitz, Natural World Hero. Foto: Steve Winter

 

O tratamento

No meio do último ano de faculdade, os pais de Alan ficaram sabendo de um programa experimental bastante intenso em Geneseo, uma cidade de Nova York,  onde o jovem ficaria dois meses direto para tratar a severa gagueira e, apesar de muito caro, os pais não mediram esforços para que ele fosse. Venderam algumas coisas e mandaram Alan para Geneseo. 

“Aquela clínica mudou a minha vida. Ela me ensinou duas coisas importantes: a primeira é que eu sou gago e sempre serei gago. Não existe uma pílula mágica e eu não vou acordar pela manhã, como sempre sonhei, sendo fluente na fala. A segunda coisa, a mais importante, se eu fizesse o que eles estavam me ensinando, se usasse as ferramentas, se aprendesse a mecânica para controlar mecanicamente a minha boca e o fluxo de ar, se eu trabalhasse duro, poderia ser um gago fluente. E eu trabalhei duro e foi inacreditável! Em 20 anos eu finalmente pude falar!” Relata Alan.

Finalmente nosso Alan estava experimentando uma nova fase. Claro que foi trabalhoso, enquanto falava precisava pensar e controlar o fluxo de ar e outras coisas, mas nada disso importava para ele pois agora a vida seria diferente, ele voltaria para a escola e iriam aceitá-lo. 

 

As mudanças

As coisas de fato foram diferentes, mas no exterior, pois em seu interior ainda se sentia aquela mesma pessoa gaga, frustrada, que cursava medicina não porque gostava, mas para quando se formasse e fosse médico, as pessoas gostassem dele, falassem com ele e o valorizassem. Ele não gostava de trabalhar com pessoas, não gostava de ver os animais de laboratório na situação em que se encontram e o próprio trabalho era frustrante.

Então, no seu último semestre abandonou a faculdade e entrou para a Universidade do Tennessee no curso de biologia e zoologia de animais silvestres. “Então no meu primeiro ano eu estava nas Great Smoky Mountains estudando ursos negros e quando eu estava na floresta com os animais, eu estava em casa. Isso é o que eu nasci para fazer. Estar na floresta sozinho com os animais era meu closet do mundo real. Isso era o que me fazia sentir bem. (…) Era como eu deveria viver minha vida.” Conta Alan.

Logo após seu título de PhD, conheceu George Schaller, um grande zoólogo pioneiro em estudos de animais em campo utilizando radiotransmissores e precursor no estudo de onças pintadas. “Nós passamos um dia juntos seguindo ursos nas Smoky Mountains e no final do dia, George disse para mim: ‘Alan, você gostaria de ir para Belize e ser um dos primeiros a estudar onças pintadas na selva?’ O primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi ‘onde diabos é Belize?’ Mas a primeira palavra que saiu da minha boca 30 segundos depois foi ‘é claro que eu vou’.¨ Lembra Alan (Belize é um país da América Central perto da Guatemala, apenas situando os Alans de plantão!) 

 

O início do trabalho com as onças

Dois meses depois, Alan fez suas malas e dirigiu de Nova York até a América Central. Em Belize. Lá ele aprendeu muito. Aprendeu com os caçadores como capturar onças, aprendeu a segui-las e a estudá-las. Estava vivendo a vida dos sonhos. Apesar das dificuldades com doenças, picadas de animais peçonhentos, estar na natureza e fazer o que amava era como estar no céu. Alan estava feliz, confortável e sentiu que aquilo era o que poderia fazer para o resto da vida.

Mas ele não podia. Não podia porque percebeu que enquanto ele estava capturando e estudando as onças, elas estavam sendo mortas na frente dele, tanto as da área de estudo quanto as de fora dela. “Eu podia ficar sentado na selva, mas aí não estaria sendo fiel comigo mesmo e o mais importante, eu não estaria sendo fiel com a promessa que fiz aos meus animais no meu closet que eu seria a voz deles. E eu tinha a voz agora.” Disse Alan.

 

Alan Rabinowitz. Foto: https://myhero.com/

 

Travando a luta pela conservação das onças 

Foi então que Alan percebeu que teria que voltar à realidade. Teria que voltar para o mundo das pessoas e tentar lutar de alguma forma para salvar as onças. Ironicamente ele percebeu que para salvar estes animais ele não teria apenas que voltar para o mundo das pessoas, mas teria que tentar alcançar o governantes, teria que falar com o primeiro-ministro. 

Seis meses depois estava na porta do primeiro-ministro. Tinha ganhado 15 minutos para expor suas ideias e não tinha  a menor ideia do que falar. “Eu tinha 15 minutos, não podia gaguejar. Não podia distraí-los do ponto central que era salvar as onças. Eu tinha que usar tudo que tinha aprendido e ser um falante completamente fluente e convencer um dos países mais pobres da América Central, que não possuía nenhuma área protegida naquela época, no qual o turismo não era valorizado, de que eles tinham que salvar onças.” Conta Alan.

Uma hora e meia depois foi em votação a criação da primeira reserva de proteção de onças do mundo. “…e eu prometi para eles que iria funcionar. Eu prometi que mostraria para eles que geraria benefícios econômicos.” Lembra Alan.

 

De volta à selva 

Um mês depois, Alan estava de volta à selva, seguindo suas onças pelo rastro. Ele conhecia todas as onças da sua área de estudo pelas pegadas. Mas neste dia ele encontrou uma pegada nova, a maior pegada de uma onça macho que ele havia visto em toda a vida.  “Eu sabia que deveria segui-la.” Ele precisava ver, saber o que o macho  fazia, se ele vinha de fora, se só estava de passagem.

 

E então ele seguiu os rastros. Seguiu por horas até perceber que estava ficando escuro e não queria ser pego na floresta à noite, principalmente sem lanterna. “Então eu me virei para voltar para o acampamento. Assim que me virei, lá estava ele, a menos de 5 metros atrás de mim. Aquela onça, que eu estava seguindo, tinha dado a volta ao meu redor e estava me seguindo enquanto eu seguia ele. Ele poderia ter me matado a qualquer momento, poderia ter me pegado e eu nem estava ouvindo ele. Eu sei que deveria estar apavorado, mas eu não estava… Instintivamente me abaixei e a onça se sentou. E eu olhei em direção aos olhos dele e me lembrei do pequeno garoto olhando para a triste e velha onça do Zoológico do Bronx. Mas este animal não estava triste. Nos olhos deste animal havia força, poder, certeza de um propósito. E eu percebi que o que eu estava vendo nos olhos dele era o reflexo do que eu estava sentindo também. Aquele pequeno garoto triste e aquela onça infeliz eram agora tudo isso.” Conta Alan

“Repentinamente eu fiquei com medo, eu sabia que tinha que ficar com medo, então eu me levantei e dei um passo para trás. A onça se levantou também. Ele se virou e começou a andar em direção a floresta. Depois de 3 mstros, ele parou e se virou para olhar para mim. Eu olhei para aquela onça e me inclinei em direção a ela, assim como havia feito no zoológico do Bronx tantos anos atrás, e sussurrei para ele ‘Está tudo bem agora. Tudo vai ficar bem.’ E a onça se virou e foi embora.” Alan lembra.

Bom, esta é a história. Espero que vocês tenham gostado assim como eu. Mas não para por ai…

 

A luta pela conservação

Após ter estudado as onças pintadas e de ter sido o grande responsável pela criação da primeira reserva de proteção às onças, a Cockscomb Sanctuary and Jaguar Preserve em Belize, Alan Rabinowitz viajou o mundo estudando e lutando pela conservação de leopardos asiáticos, do leopardo nebuloso, tigres, rinocerontes da Sumatra, ursos, gatos leopardo, guaxinins e civetas. 

Trabalhou na Tailândia conduzindo a primeira pesquisa utilizando rádio telemetria em leopardos asiáticos, gatos leopardos e civetas no santuário de vida selvagem Huai Kha Khaeng no mundo. Este trabalho contribuiu para que este santuário se tornasse Patrimônio Mundial da UNESCO. 

Em 1997, agora em Mianmar, descobriu quatro novas espécies de mamíferos, incluindo o cervo-folha, que é considerado a espécie de cervo mais primitiva do mundo. Seu trabalho em Mianmar levou à criação de cinco áreas protegidas. Os resultados das conquistas da conservação incluem o primeiro parque nacional marinho de Mianmar, o primeiro e maior parque nacional himalaio, o maior santuário de vida silvestre  do país e a maior reserva de proteção de tigres do mundo!

 

 

O corredor de onças pintadas

Em seus estudos e pesquisas, Rabinowitz descobriu que não havia subespécies de onças pintadas, geneticamente diferentes, desde os Estados Unidos até a Argentina, era apenas uma espécie. 

Então idealizou e implementou o Jaguar Corridor Initiative, um programa de conservação de áreas de uso das onças, todas conectadas a fim de garantir a integridade genética da espécie. Este corredor vai do norte do México até a Argentina e passa por 18 países.

 

Panthera

Em 2006, co-fundou a Panthera, a única organização do mundo que trabalha exclusivamente em prol da conservação das 40 espécies de felinos selvagens e seus ecossistemas. 

Contando com vários especialistas, a organização possui diversos projetos de conservação. Atua por meio de parcerias com ONGs, governantes ao redor do mundo, populações locais, instituição de pesquisas e todos aqueles que querem ajudar na conservação e futuro dos felinos selvagens.

Também criou um programa de estratégias para reduzir as ameaças enfrentadas pelos tigres, o Tigers Forever. Contou com a ajuda de ONGs, membros da comunidade e governantes para este programa de conservação que consistia em monitorar e não deixar os tigres serem vítimas de caçadores, além de reforçar a aplicação das leis.  

 

Os feitos de Alan Rabinowitz são muitos e suas contribuições são incontáveis. Infelizmente, devido a um câncer, Alan nos deixou em 2018, mas seu legado e objetivos em prol da conservação estarão sempre presentes. Continuaremos a luta por ele, pelos animais e pelo nosso mundo.  

MUITO OBRIGADA ALAN! 

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves
Revisado por Fernanda Sá

Desmistificando as serpentes

By | ficha animal | No Comments

Antes de qualquer coisa… Cobra, serpente e víbora é tudo a mesma coisa? Sim e não! Calma que eu vou explicar!

Aqui no Brasil, serpentes e cobras são a mesma coisa. São répteis de corpo alongado, que não possuem patas, rastejam, possuem o corpo coberto por escamas e são ectotérmicas, ou seja, dependem do calor externo para regular sua temperatura. As víboras são serpentes da família Viperidae e compreendem cerca de 360 espécies, entre elas a cascavel e jararaca. 

Mas na real, na real… o nome popular vai ser cobra mesmo e vida que segue. 

 

Foto: Gustavo Gigueiroa. Chironius sp.

 

Importância das serpentes 

Quando pensamos na importância das serpentes, não podemos deixar de falar do controle populacional que ela faz de anfíbios e pequenos roedores. Por se alimentar destes e de outros animais como invertebrados, lagartos e outras serpentes, por exemplo, elas impedem que as populações cresçam sem controle e se tornem pragas.

Além do mais, servem de alimento para outros bichos como corujas, gaviões, siriemas, gambás, entre outros. 

As serpentes também têm uma grande importância na medicina que vai além da produção do soro antiofídico! Pesquisadores descobriram que a peçonha de algumas serpentes podem ter diversos usos farmacêuticos. A peçonha da jararaca, por exemplo, é utilizada para a produção de Captopril, um medicamento para o tratamento de pressão alta! Para saber mais sobre os usos farmacêuticos, clique aqui!

 

Foto: Thiago Marcial de Castro. Bothrops jararaca – Jararaca.

 

Fato ou fake?

Muitas são as histórias envolvendo as serpentes, mas será que elas são verdadeiras ou apenas não passam de crenças populares? Selecionei algumas para conversarmos sobre, bora lá?

 

História 1: As serpentes te atacam independente de qualquer coisa, se ver uma cobra é picada na certa.

Fake! Se você ver uma serpente apenas deixe-a em paz! Se ela estiver em seu caminho, desvie e não a importune. Não há motivos para elas atacarem se nós a deixarmos no canto delas, sem machucá-las ou incomodá-las! Elas irão se defender caso se sintam acuadas ou ameaçadas. 

 

História 2: Ao tentar matar uma serpente, se ela não morrer, ela voltará para se vingar.

Fake de novo! As serpentes não têm essa capacidade de lembrar da sua carinha e nem têm esse desejo de vingança, pode ficar tranquilo! Mais uma vez: elas só vão atacar caso se sintam ameaçadas. O único errado nessa história é quem tenta matar a serpente.

 

Foto: Thiago Silva-Soares. Leptophis ahaetulla – Azulão-boia

 

História 3: As serpentes te hipnotizam.

É mentira! O que pode acontecer é a pessoa ficar paralisada de medo. Isso sim acontece, mas aí não tem nada a ver com a serpente e sim com a resposta do corpo do indivíduo ao medo.

 

História 4: O formato da cabeça da cobra define se ela é peçonhenta ou não. Cabeça triangular é peçonhenta e cabeça ovalada não.

Também é mito! O formato da cabeça não quer dizer nada, a coral verdadeira é peçonhenta e apresenta a cabeça ovalada, já a jibóia possui cabeça triangular e não possui peçonha. Com dois exemplos simples a gente derrubou essa mentirinha.

 

História 5: Para distinguir a coral falsa da coral-verdadeira, é só olhar a barriga, se for branca é falsa.

Mais uma crença para a conta! E essa é complicada viu? Vocês não tem noção da quantidade de padrões de cor que corais-verdadeiras e falsas podem ter!!! 

Olha só esse comparativo que o herpetólogo Marcus Buononato fez para auxiliar na identificação! Difícil distinguir né? 

 

Por: Marcus Buononato.

 

História 6: A caninana corre atrás.

Não! A caninana é uma serpente agressiva quando incomodada e pode dar uma investida na pessoa a fim de assustá-la, além de dilatar o pescoço para parecer mais ameaçadora. Mas daí a sair perseguindo alguém, é demais! Ela também não é uma espécie peçonhenta, então pode ficar tranquilo!

 

História 7: Os anéis do chocalho da cascavel indicam a idade dela.

Quem dera! Na verdade, os anéis do chocalho da cascavel indicam quantas trocas de pele ela já realizou. Em média, é acrescentado um anel ao chocalho a cada duas trocas de pele, e a frequência da troca varia com o tamanho da serpente, disponibilidade de alimento entre outros fatores. 

 

Bom, existem muito mais histórias e crenças sobre as serpentes do que qualquer outra coisa, mas devemos sempre procurar saber se de fato procedem. Essa é única maneira de conscientizar as pessoas de que serpentes não são animais ruins e evitar que mais e mais serpentes sejam mortas por desinformação! 

 

 

Foto: Thiago Silva-Soares. Erythrolamprus poecilogyrus – cobra-d’água.

 

O que fazer caso encontre uma serpente em casa.

Se alguma serpente entrar na sua casa ou no seu carro, você pode ligar para a polícia ambiental, para os bombeiros ou para algum órgão ou instituição capacitada para esse trabalho. 

Se você estiver na zona rural e não conseguir ajuda, você pode tentar removê-la utilizando um rodo e colocá-la o mais longe possível da sua casa. Olha só como nosso biólogo, Gustavo Figueiroa, fez para remover uma cascavel da casa dos pais dele: clique aqui para ver o vídeo. Nos destaques do perfil do Gustavo no Instagram, ele também fala um pouco sobre as cobras e ainda mostra o pai dele removendo outra cascavel que apareceu, sem maiores problemas.

É de extrema importância ressaltar que se você não tiver conhecimento, experiência ou confiança, não manuseie nenhuma serpente pois acidentes podem acontecer.

 

Foto: Thiago Silva-Soares. Crotalus durissus – Cascavel

 

Acidentes ofídicos 

Como eu disse anteriormente, acidentes acontecem e saber o que fazer nesses casos é de extrema importância! Primeiramente mantenha a calma! Lave a região com água e sabão, se mantenha hidratado, não faça torniquetes, não tente chupar o veneno e não faça mais cortes para o sangue sair. Vá imediatamente para o hospital e se possível, tire uma foto do animal ou tente descrevê-lo, mas se não conseguir tudo bem, o mais importante já foi feito!

 

Foto: Gustavo Figueiroa. Hydrodynastes gigas – Surucucu do Pantanal.

 

Agora que você sabe a importância das cobras e que várias histórias eram apenas mitos, por favor, não mate e nem deixe as pessoas matarem ou maltratarem as cobras por falta de informação e medo! 

Passe o conhecimento para frente! Conhece mais alguma crença? Conta pra gente!

 

Texto por Anna Luisa Michetti Alves

Revisado por Fernanda Sá

ELEPHANT PARADE: A ARTE DA CONSERVAÇÃO

By | Eventos de Conservação | No Comments

Arte, negócios e conservação: como essa combinação única tem ajudado os elefantes da Ásia.

 

A Elephant Parade é a maior exposição de esculturas de elefantes decorados do mundo inteiro! Cada peça única, criada por artistas e celebridades, do tamanho e formato de um elefante bebê, fazem mais do que apenas encantar o público e embelezar o local em que estão. As esculturas ajudam a promover a conscientização acerca da situação atual dos elefantes e a arrecadar fundos para projetos de conservação dos gigantes asiáticos. 

 

Esculturas no Aeroporto de Zurich. Foto: Zef Markai

 

O começo de tudo

A história começa com um homem, Marc Spits, que, durante sua viagem a Chiang Mai, na Tailândia, visita um Hospital de Elefantes e conhece Mosha, um bebê elefante fêmea que perdeu parte da pata dianteira ao pisar em uma mina terrestre quando tinha apenas sete meses. Mosha tinha muitas dificuldades para caminhar e sustentar seu peso nas três patas restantes. Viver desta forma era um desafio e aumentaria à medida que ela crescesse. 

Comovido com a história e com o que viu, Marc decidiu agir, Mosha ganhou uma prótese para sua pata e foi a primeira elefanta do mundo a usar uma prótese funcional! 

Mas Marc queria algo maior. Queria algo que atingisse mais elefantes, mais pessoas, que fosse sustentável e rentável a longo prazo. 

 

Mosha com sua prótese. Foto: @elephantparadefan

 

Em 2006, Marc e seu filho, Mike Spits, resolveram criar a Elephant Parade, uma enorme exposição de esculturas em que 20% do lucro líquido seria doado para os cuidados de Mosha e outros elefantes asiáticos. 

 

Mike (a esquerda) e Marc Spits (a direita), os criadores da Elephant Parade. Foto: Site Elephant Parade

 

A primeira Elephant Parade

A primeira exposição aconteceu no ano de 2007 na cidade de Roterdã, Holanda. O evento contou com 50 esculturas de elefantes pintadas por artistas locais e tailandeses. O sucesso foi imediato! Várias pessoas visitaram e fotografaram as esculturas de bebês elefantes. Ao final as peças foram leiloadas e o valor arrecadado foi de 248.500 euros!!! 

 

Escultura “Rabocyclist” por Ekkawin Mahaek. Foto: Site Elephant Parade

 

A primeira instituição contemplada com a doação do dinheiro foi o “Friends of the Asian Elephant Hospital”. O hospital de elefantes, além de atender vários elefantes que precisam, também se tornou a casa de Mosha, já que ela não pode voltar para a natureza. 

 

E foi só o começo

Após o sucesso da primeira edição, a Elephant Parade não parou mais. Todos os anos, desde 2007, alguma cidade ao redor do mundo é escolhida para sediar o evento. 

Clique aqui para conferir todas as edições do evento

Além do leilão das peças, também são confeccionados réplicas artesanais das esculturas e outros produtos estampados como cofres, imãs de geladeira e acessórios, todos com porcentagem do lucro revertidos para a conservação dos elefantes. 

 

Réplicas artesanais. Foto: @elephantparadefan

 

E vocês acham que o Brasil ficaria de fora dessa?

Claro que não!

A exposição também ocorre no Brasil, graças aos nossos parceiros e amigos, Giovane Pasa, Carolina Barreto e a empresa Artery, que são os licenciados oficiais da Elephant Parade aqui em na nossa terrinha!

 

Esculturas em Florianópolis. Foto: Mariana Boro

 

No ano de 2017 foi a vez de São Paulo receber 85 elefantes! Você chegou a ver algum?

Em 2018 tivemos a manada de elefantes no Park Shopping Canoas, no Rio Grande do Sul. 

Belo Horizonte não ficou para trás! Também recebeu estes grandões que, logo depois, já voaram para a cidade maravilhosa! O Rio de Janeiro ficou ainda mais lindo com os 60 elefantes que recebeu! O leilão beneficente aconteceu no Copacabana Palace, chique né? 

Tá achando que acabou??? Claro que não! Nós somos chiques demais sô! Em 2019 tivemos mais duas em solo brasileiro. Recebendo 40 elefantes coloridos, Campinas/SP foi agraciada com as esculturas! Ispia só que belezura!!! 

Brasília foi a outra sortuda e recebeu a manada no ParkShopping! Inclusive fizeram um vídeo muito bacana que você pode conferir clicando aqui.

 

Esculturas no Golden Room do Belmond Copacabana Palace para exposição e leilão. Foto: Bruno Contrino

 

Papo sério: a atual situação dos elefantes asiáticos

A situação dos elefantes asiáticos não é nada boa. Nos últimos 100 anos a população diminuiu em mais de 70% e eles perderam por volta de 95% do seu habitat. As ameaças são constantes. Elas envolvem a caça, a cobiça pelo marfim, a disputa por habitat, já que a população tem crescido e as cidades expandido, os conflitos com humanos, entre outros fatores. Estima-se que atualmente existam menos de 50.000 elefantes asiáticos no mundo e nesse ritmo de destruição, eles podem desaparecer em 30 anos! 

 

Foto: @elephantfamily

 

Não podemos esperar, temos que agir agora! 

E é este o objetivo da Elephant Parade! Conscientizar as pessoas e ajudar as organizações que cuidam e preservam elefantes asiáticos. 

O hospital em que Mosha vive é uma das organizações contempladas com a ajuda da Elephant Parade e desde sua criação no ano de 1993, já atendeu mais de 4000 elefantes! O hospital também tem uma unidade móvel, viabilizado pelas doações, para atender casos que não são possíveis transportar os animais até a sede. Outra instituição parceira muito importante é a “Elephant Family”. Eles apoiam mais de 160 projetos de preservação dos elefantes asiáticos e contam com uma equipe incrível de especialistas em conservação animal e ambiental.

 

Foto: Site Elephant Parade

 

A arte da conservação e a conservação pela arte

A ideia de juntar a arte e a conservação não poderia ser melhor! A visibilidade, a sensibilização e a curiosidade geradas são de fato impactantes! As doações, então, nem se fala! 

É claro que não muda por completo a situação dos elefantes asiáticos, mas já é um passo enorme para esta mudança. 

Por aqui, podemos fazer nossa parte fazendo doações diretas para instituições de preservação como a Elephant Family: clique aqui e doe agora!

Comprando produtos da Elephant Parade: clique para ir para a loja!

E procurando saber mais acerca da situação, bem como compartilhar com as pessoas, gerando mais engajamento na causa! 

 

Foto: Kalyan Varma

 

Quer saber mais sobre? Visite o site da Elephant Parade aqui e o site da Elephant Parade Brasil aqui

Para segui-los no Instagram e ficar por dentro de tudo siga @elephantparadebrasil e @elephantparadefan 

 

Texto por Anna Luisa Michetti

Revisado por Fernanda Sá